domingo, 8 de novembro de 2009

REPÚDIO

Por elaborar e manter, carinhosamente, este blog para os estudantes, manifesto aqui o meu total repúdio em relação à conduta inaceitável dos alunos e da direção da Universidade Bandeirante em relação à aluna Geisy. Se a alegação da instituição para expulsar a aluna "sensual" (na opinião de quem?) é a conduta inadequada, que este também seja o critério de punição em relação à conduta inaceitável dos estudantes que a humilharam. E que sejam dados nomes aos (literalmente) bois do moralismo hipócrita e truculento: caso contrário, o mercado e a sociedade irão repudiar todo e qualquer egresso desta universidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ASPECTOS GERAIS SOBRE PUBLICIDADE E PROPAGANDA

ASPECTOS GERAIS SOBRE PUBLICIDADE E PROPAGANDA

BIBLIOGRAFIA: RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo Guimarães. “Dicionário de comunicação”. Rio de Janeiro: Campus, 2001. /// SAMPAIO, Rafael. “Propaganda de A a Z: como usar a propaganda para construir marcas e empresas de sucesso”. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

Segundo os autores RABAÇA & BARBOSA (2001) a PROPAGANDA pode ser definida como “comunicação persuasiva”, ou seja: ela compreende um conjunto de técnicas e atividades de persuasão que têm como objetivo influenciar as opiniões, os sentimentos e as ações das pessoas. Já a PUBLICIDADE tem como objetivo tornar público um determinado conteúdo, independentemente de sua influência em relação ao público. Isto porque, historicamente, a palavra PROPAGANDA se liga às técnicas da Igreja Católica e às estratégias políticas, uma vez que o sentido da palavra (propagar, multiplicar, estender) indica o ato de incutir crenças e disseminar ideologias; ao passo que a palavra PUBLICIDADE tem suas origens ligadas a questões jurídicas, que buscavam o ato de divulgar informações para o público. Atualmente, porém, as duas palavras comportam um significado comercial, que indica a forma de divulgação de produtos e serviços através de anúncios (pagos, na grande maioria das vezes).
É por isso que SAMPAIO (1999: p.24) define propaganda como “a manipulação planejada da comunicação visando, pela persuasão, promover comportamentos em benefício do anunciante que a utiliza”. Isto equivale a dizer que a função da propaganda é informar (idéia associada à publicidade) e despertar interesse em quem consome. Seus diferentes aspectos envolvem o entendimento sobre três termos: “advertising”, que é o anúncio comercial para a divulgação e o consumo de bens ou de mensagem de utilidade pública que busca a promoção de ações úteis à comunidade; “publicity”, que é a informação veiculada editorialmente (sobre pessoas, produtos, eventos) sem que se pague por isso; e “propaganda” de cunho político, religioso ou ideológico que busca disseminar determinadas idéias. “Na maioria das vezes, no entanto, propaganda é a divulgação de um produto ou serviço com o objetivo de informar e despertar interesse de compra/uso nos consumidores” (SAMPAIO: 1999, p.25). Neste processo estão envolvidos o anunciante (que busca o aumento de seus negócios), o consumidor (que deve ser informado e conquistado) e o veículo (para o qual a mensagem deve ser adequada).
De acordo com as idéias de SAMPAIO (1999), quando abordamos a propaganda cm objetivos promocionais, estamos nos referindo à venda de produtos ou serviços de uma determinada empresa. Esta atividade compreende as seguintes tarefas: 1) divulgação da marca, para torná-la mais íntima e conhecida entre os consumidores; 2) promoção da marca, para ressaltar seus aspectos competitivos; 3) criação de mercado para a marca, que se refere à conquista dos consumidores; 4) expansão do mercado, que é o aumento da massa de consumidores; 5) correção do mercado, que se refere à adequação das mensagens divulgadas para que os consumidores fiquem corretamente informados; 6) educação do mercado, que se refere à formação de um hábito de consumo; 7) consolidação do mercado, que é a manutenção de uma posição de vendas no mercado através do reforço das qualidades do produtos; e 8) manutenção do mercado, que é a resposta aos ataques e esforços da concorrência.
Mas, afinal, como se faz isso? Mais uma vez, é SAMPAIO (1999) que nos orienta. De acordo com o autor, é preciso, em primeiro lugar, definir os objetivos da propaganda, ou seja, deixar bem claro qual é a tarefa que ela deve cumprir e quais as informações que ela deverá utilizar para isto. Em segundo lugar, deve-se fazer um trabalho de pesquisa para definir quem são os consumidores, como eles reagem ao que vai ser anunciado, quais são os seus hábitos de consumo, qual é o seu perfil econômico/cultural/social, como a concorrência age sobre eles, qual é o valor que o produto ou serviço a ser anunciado tem para este consumidor e quais são os argumentos que mais mobilizam este perfil. A partir disso, entra-se na fase de planejamento, quando as informações da pesquisa são organizadas e a estratégia de ação é traçada para definir o que (qual conteúdo) será comunicado, a quem (qual consumidor), de que forma (anúncio, comercial), com que ênfase (pontos a serem ressaltados), com que argumentos (idéias persuasivas), de que modo (informando, lembrando, comparando), através de quais meios (rádio, TV, jornal, revista, internet) e quando (época do ano, dia da semana, horário).
É só a partir de todo este trabalho de concepção e planejamento que podemos partir para as etapas de criação e de mídia.SAMPAIO (1999) nos diz que a criação se refere à geração de idéias que comuniquem (de forma cativante, sucinta e surpreendente) o objetivo da propaganda. Esta etapa deve ser orientada por três critérios importantíssimos: 1) a criatividade, para que a propaganda tenha destaque junto a consumidor; 2) a pertinência, para que a propaganda atenda aos objetivos inicialmente definidos; e 3) emoção, para que a propaganda cative o consumidor, minando sua indiferença. Simultaneamente, deve-se fazer um planejamento de mídia, que irá definir em que meios de comunicação e em que veículos desses meios a propaganda será inserida, bem como suas posições (horário ou espaço) e seus formatos (tempo de comercial ou tamanho do anúncio) mais adequados. Aprovadas as idéias da criação e o plano de mídia, parte-se para a produção das peças da propaganda e a compra da mídia. Feita a veiculação, parte-se para a aferição dos resultados da propaganda, ou seja: depois desse trabalhão todo, é a resposta do público/consumidor que vai definir se tudo isto foi eficiente ou não.

segunda-feira, 9 de março de 2009

PANORAMA DAS TEORIAS DO JORNALISMO 3: O PAPEL E A PRODUÇÃO DA NOTÍCIA

BIBLIOGRAFIA: KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo. São Paulo: Edusp, 2002. // PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.
OBRAS/AUTORES CITADOS: SIEBERT,F., PETERSON, T. & SCHRAMM, W. Four theories of the press. Urbana, Illinois, 1956. // ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996.

Um enfoque normativo sobre o funcionamento dos meios noticiosos aponta para o fato de que a imprensa molda suas notícias de acordo com as estruturas sociais, políticas e econômicas nas quais está inserida. A partir desta idéia, KUNCZIK (2002) nos apresenta as “quatro teorias da imprensa” desenvolvidas por SIEBERT, CHRAMM e PETERSON (1956): teoria autoritária; teoria liberal; teoria do comunismo soviético; e teoria da responsabilidade social.
A primeira e mais antiga, a teoria autoritária, remonta ao século XVI, quando surgiu a filosofia estatal do absolutismo. Nesta época, o papel da imprensa era o de promover a política do governo e servir ao Estado, o que levava os editores a serem controlados e censurados. Com o Iluminismo e o conseqüente crescimento das liberdades políticas, econômicas e religiosas, o papel da imprensa se inverteu: ela passou a buscar a “verdade” e a controlar o Estado em vez de servi-lo. Surge, então, a teoria liberal, que teve seu apogeu no século XIX e que trouxe à tona as noções do jornalismo como “quarto poder” e do “livre mercado de idéias”.
De acordo com KUNCZIK (2002), as teorias do “comunismo soviético” e da “responsabilidade social” derivam dessas duas primeiras. A teoria do comunismo soviético seria um desenvolvimento da teoria autoritária porque, segundo ela, a principal função da imprensa é a de apoiar o sistema e o partido socialistas. Controlados diretamente pelo Estado, os meios de comunicação são extensões do governo, não visam o lucro e veiculam notícias nas quais a interpretação é secundária. Tudo isto com o objetivo de, através do desenvolvimento e da mudança estrutural da sociedade, chegar ao comunismo. Já a teoria da responsabilidade social chama a atenção para o fato de que o financiamento comercial do “livre mercado de idéias” trouxe prejuízos ao público, uma vez que a auto-regulamentação e o auto-controle dos meios de comunicação de massa é uma fantasia. Por isso, a imprensa deve ser livre e socialmente responsável, servindo ao sistema político para que haja acesso aos atos públicos; informando o público para que ele adote ações autônomas; protegendo os direitos do indivíduo através da vigilância sobre o governo; servindo ao sistema econômico através da publicidade; e preservando sua autonomia financeira.
A partir deste cenário das quatro grandes teorias da imprensa, podemos enveredar na sistematização de PENA (2005) sobre as diferentes teorias e as críticas do jornalismo. Inicialmente, o autor nos aponta a teoria do espelho, segundo a qual o jornalismo reflete exatamente a realidade. Com bases no século XIX, esta teoria busca aproximar o jornalismo do método científico e tem como princípio básico a separação entre fatos e opiniões através de uma linguagem neutra, o que faz do jornalista um mero observador desinteressado do real. Este “sujeito observador” nos abre entendimento para a teoria do gatekeeper, que privilegiar a ação pessoal do jornalista, uma vez que diz respeito ao poder de decisão que determinados indivíduos têm na seleção das informações que irão para o noticiário. Esta idéia reforça a noção de intencionalidade na produção noticiosa, bem como a idéia do poder exercido pelo jornalista e a questão do fluxo da informação na sociedade contemporânea.
Por outro lado, a teoria do newsmaking diz que o jornalismo ajuda a construir a realidade, em vez de apenas refleti-la. Construtivista, esta teoria aceita que as notícias são vinculadas à realidade, mas também são determinadas pela organização do trabalho jornalístico e pelos processos de produção noticiosa. Isto porque a superabundância de fatos no cotidiano necessita de uma organização produtiva que segue uma rotina industrial. Concomitantemente, como as normas de produção são mais importantes que as preferências pessoais, o jornalista se submete a um planejamento produtivo no qual a seleção dos fatos e a maneira de abordá-los são cruciais. Nesse sentido, a teoria organizacional prega que o trabalho jornalístico depende dos meios utilizados para sua efetivação. Como o objetivo primeiro das organizações midiáticas é o lucro, esta teoria nos diz que o alcance (ou a audiência) das mensagens noticiosas é determinante no trabalho jornalístico. Isto equivale a dizer que o jornalista é um indivíduo que acata a política e as normas editoriais da empresa na qual trabalha em detrimento de suas escolhas e de seus valores pessoais. De acordo com esta idéia, o jornalista não orienta suas escolhas pensando no público e sim nos superiores, no mercado das notícias e no lucro.
Seguindo esta linha, a teoria instrumentalista afirma que as notícias servem a determinados interesses políticos. Baseada em estudos sobre a parcialidade, esta linha de análise verifica a presença ou não de distorções nos textos noticiosos; distorções estas que podem ser detectadas a partir de um ponto de vista “de esquerda” (segundo o qual as notícias são mantenedoras do sistema capitalista) ou “de direita” (segundo o qual as notícias questionam o sistema capitalista). Aqui, PENA (2005) chama a atenção para cinco padrões de manipulação engendrados pela notícia e estudados por Perseu Abramo (1996):
1. padrão de ocultação- refere-se à ausência de determinados fatos reais no noticiário;
2. padrão de fragmentação- refere-se à descontextualização dos fatos noticiados de seus antecedentes e de suas conseqüências, bem como à desconexão entre os fatos presentes no noticiário;
3. padrão de inversão- refere-se à valorização do que é noticiado, através de uma espécie de substituição da importância de conteúdos, fatos e informações pelas suas formas, versões e opiniões;
4. padrão de indução- refere-se a uma série de distorções que levam o público a enxergar uma realidade artificialmente inventada;
5. padrão global- refere-se á apresentação da realidade como algo absoluto.
A partir deste panorama acerca das teorias do jornalismo, partiremos para o entendimento acerca dos critérios que estabelecem quais e como os fatos se transformam em notícia. Ou seja: estudaremos os critérios da noticiabilidade e a rotina de trabalho do repórter.
Para isto, precisamos entender primeiro quem é o indivíduo pressionado pelas diferentes “forças” que analisamos até aqui. E que atende pelo nome de “repórter”: um sujeito dividido entre o que o jornalista Ricardo Kotscho chama de “a missão de informar para transformar” e o que o teórico Ciro Marcondes Filho chama de “a saga dos cães perdidos”.
Vamos a eles no próximo texto.

terça-feira, 3 de março de 2009

Panorama das teorias do jornalismo 2: o "menu" da mídia

BIBLIOGRAFIA: BARROS FILHO, Clóvis. Ética na comunicação. São Paulo: Summus, 2003. // RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de comunicação. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

Afirmar que a mídia em geral (e o jornalismo em particular) determina cruamente o pensamento dos indivíduos é ingenuidade. Mais correto seria dizer que ela nos aponta, nos orienta e nos pauta sobre o que pensar, discutir, trocar e compartilhar. Nesse sentido, BARROS FILHO (2003) sistematiza duas teorias ligadas ao jornalismo: a hipótese do “agenda setting” e a hipótese da “espiral do silêncio”. Ambas partem do princípio de que a seleção que a mídia faz de determinados temas a serem veiculados é paralelo ao “apagamento” dos demais assuntos que não são por ela “iluminados”. Isto não significa dizer que as pessoas, em suas relações interpessoais, comentem apenas fatos midiatizados, mas sim que estes fatos estão marcadamente presentes no temário macro-social.
No que diz respeito especificamente à idéia central da hipótese do “agenda setting”, a obra “Public Opinion” (1922), de Walter Lippmann, já destacava o direcionamento da atenção dos leitores para determinados temas apontados pela mídia como sendo de “interesse coletivo”. Para ele, o conhecimento que as pessoas têm do mundo exterior é formado pela seleção midiática de determinados símbolos do mundo real. Posteriormente, em 1972, Maxwell McCombs e Donald Shaw cunharam a expressão (“agenda” = pauta e “setting” = fixação, determinação) após constatarem que o principal efeito provocado pela imprensa é produzir a imbricação entre a agenda midiática e a agenda pública.
De acordo com BARROS FILHO (2003), os fatores que condicionam o “agenda setting” estão ligados à mensagem e à recepção. Nesta, um dos fatores determinantes seria a necessidade de orientação que o público tem, necessidade esta que é condicionada pelo interesse e pelo grau de incerteza do receptor em relação a determinado assunto.
No que diz respeito à mensagem, a maioria dos estudos do “agenda setting” dizem respeito a temas políticos, uma vez que apontam em que medida a mídia interfere na luta política pelo poder. O conteúdo destas mensagens, por sua vez, é determinado pela possibilidade de personalização do conteúdo da informação; pela possibilidade de dramatização (geralmente) através de um conflito; e pela eventualização, ou seja, a dinamização do tema que tona possível que o receptor constate uma ação ou um acontecimento. Concomitantemente a estas três características, a seleção de determinado conteúdo a ser veiculado em determinada mídia também é influenciada pela veiculação operada pelos outros meios e mídias.
Ainda em relação ao conteúdo da mensagem, o autor destaca a diferenciação que deve ser feita entre os assuntos “temáticos” e os assuntos de “acontecimento”. Os primeiros s referem a reflexões sobre probelmas sociais e preocupações públicas, como o desemprego, a corrupção ou a inflação, por exemplo. Os demais dizem respeito a fatos concretos e, geralmente, caracterizados pelo elemento surpresa, como um terremoto, um acidente ou uma final de campeonato, por exemplo. Porém, esta divisão não é rígida, uma vez que um assunto inicialmente caracterizado como “acontecimento” pode vir a se tornar “temático”.
O meio no qual a mensagem é veiculada também condiciona o “agenda setting”. Ainda segundo o autor, há mais “agendamento” através das mensagens impressas do que das eletrônicas. Nestas últimas, o “agenda setting” televisivo ocorre em relação às informações de caráter geral e tem maior probabilidade de influenciar a agenda pública “quando a cobertura de um tema específico é feita de maneira intensiva em um curto espaço de tempo” (BARROS FILHO: 2003, p192).
Criada por Elizabeth Noelle-Neuman em 1972, a hipótese da espiral do silêncio tem como ponto de partida o medo que os indivíduos têm do isolamento social, medo este que os faria expressar opiniões concordantes com a opinião dominante (imposta pelos meios de comunicação). O silenciamento das opiniões minoritárias seria cíclico e progressivo, o que explica a idéia de espiral. Ou seja: quanto mais dominada, maior a tendência de uma opinião não ser manifestada. Os fatores que produzem esta espiral do silêncio são a acumulação, representada pela visibilidade exagerada que determinados assuntos têm na mídia; pela ubiqüidade, representada pela sensação de que a mídia pode estar em todos os lugares; e pela consonância dos assuntos na mídia, representada pela abordagem semelhante dos mesmos temas feita pelos diferentes veículos e mídias. BARROS FILHO (2003) nos chama a atenção para o fato de que

“Essa consonância tendencial não só dá ao conjunto dos produtos informativos, e indiretamente a cada informação mediatizada em separado, uma maior ou menor aparência de objetividade, como também permite aos meios canalizar um só fluxo de opinião, impondo-o como dominante”. (BARROS FILHO: 2003, p.210)

A teoria da espiral do silêncio mostraria, assim, que o medo do isolamento social que leva ao silenciamento seria um obstáculo às mudanças e um mantenedor do status quo. E isto seria facilitado pelo acesso que uma minoria dominante tem aos meios de comunicação de massa.

Panorama das teorias do jornalismo 1: o método jornalístico

BIBLIOGRAFIA: BUCCI, Eugênio in GOMES, Mayra Rodrigues. Poder no jornalismo. São Paulo: EDUSP, 2003. // KOVACH, Bill & ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público deve exigir. São Paulo: Geração Editorial, 2003. //

Segundo BUCCI (in GOMES: 2003), o jornalismo consolida aquilo que chamamos de realidade em vez de “retratar a realidade”. Para o autor, o fato jornalístico já nasce como relato, uma vez que isto dará a ele um sentido narrativo. Um episódio pode nascer como evento, cena, imagem ou ícone e é a notícia que, como elemento discursivo, funcionará como elo de um discurso maior. Estes eventos, imagens, ícones ou cenas são o que o autor chama de “atos de fala”, que interferem no discurso do mundo sobre o mundo para alcançar visibilidade e, conseqüentemente, a condição de notícia. “Entender os fatos é, quase sempre, entender o discurso que eles procuram articular por meio dos relatos jornalísticos” (BUCCI in GOMES: 2003, p.10). Um fato seria, assim, a versão que ele gera, o que equivaleria a dizer que a realidade não antecede o discurso: o que chamamos de realidade é sempre a realidade discursiva. Porém, os jornalistas, freqüentemente, não se dão conta da separação entre fato e relato, supondo que os eventos sempre se dão independentemente da presença ou do olhar do observador.
Para BUCCI (in GOMES: 2003), o fluxo das notícias ordena os fatos e o discurso jornalístico é o ordenador daquilo que chamamos realidade. E a realidade, por sua vez, é composta pelos significados que compõem a comunicação social. O discurso jornalístico hierarquiza sentidos e valores, preconiza condutas e modos de falar e separa o dizível do indizível, exercendo uma função normatizadora e punitiva a partir de um mundo que só existe porque é descrito. Apesar disto, o autor ressalta a importância do papel democrático desempenhado pelo jornalismo, o que justifica sua crítica em relação à tão falada “neutralidade”. Aqui, abre-se a questão em relação à tarefa (pertinente ao jornalismo) de produzir textos não-ficcionais: uma tarefa que parte da coleta das informações, passa pelo entendimento sobre elas e desemboca em sua transmissão ao receptor.
É em função disto que KOVACH & ROSENSTIEL (2003) afirmam que a essência do jornalismo é a disciplina da verificação, uma vez que é ela que separa esta área de atuação do entretenimento, da propaganda, da literatura e das artes. Para os autores, esta disciplina da verificação compreende métodos muito pessoais, mas também parte, de forma geral, do conceito da objetividade. Inicialmente, o termo apareceu para que os jornalistas desenvolvessem uma forma eficaz de testar a informação para que seus preconceitos pessoais ou culturais não prejudicassem a exatidão de seu trabalho. Ou seja: para incutir uma espécie de “espírito científico” no trabalho jornalístico, que deveria dar um enfoque transparente às provas disponíveis para relatar os fatos. Com isso, sugere-se que o que é objetivo é o método jornalístico e não o jornalista ou o jornalismo em si. É por isto que os autores chamam a atenção para o fato de que

“Os jornalistas que selecionam as fontes para expressar o que na verdade é seu próprio ponto de vista e depois usam a voz neutra para que tudo pareça bem objetivo, estão trapaceando. Isso prejudica a credibilidade da profissão ao fazê-la parecer sem princípios, desonesta e preconceituosa”. (KOVACH & ROSENSTIEL: 2003, p.117)

A introdução da tecnologia no dia-a-dia do jornalismo, porém, enfraquece a metodologia de verificação criada pelos jornalistas, uma vez que a facilidade na obtenção, na reescrita e no redirecionamento dos fatos debilita o processo de checagem: gasta-se mais tempo procurando dados e declarações para serem acrescentados a uma matéria ou reportagem do que investigando-os. Em lugar do “jornalismo de verificação”, emerge o que os autores chamam de “jornalismo de afirmação”, no qual os jornalistas se ocupam mais em sintetizar a grande massa de informações, principalmente as da internet. Isto faz com que os dois grandes princípios da isenção e do equilíbrio se tornem meras técnicas de fachada. Ou seja: uma boa reportagem não é aquela que simplesmente apresenta as declarações de “ambos os lados”, não só porque uma história pode ter mais de dois lados como também porque, às vezes, pode ter apenas um.
O aprimoramento da qualidade da informação e da discussão pública pode, segundo os autores, ser conseguido através da melhoria da disciplina da verificação, que deve ser mais consciente. Para reforçar o jornalismo de método objetivo, a ciência da reportagem deve seguir cinco princípios: nunca acrescentar o que não existe; nunca enganar o público; ser transparente sobre os métodos e motivos da reportagem; confiar apenas no próprio trabalho de investigação; trabalhar com humildade.
Se uma informação não puder ser checada, verificada, não deve ser utilizada. É por isso que os autores afirmam que reconstruir diálogos, utilizar personagens compostos, sintetizar os fatos e transportar pessoas no tempo são “truques” que não devem ser utilizados pelos jornalistas. O recurso de rearranjar os fatos no tempo e no espaço ou fundir personagens e eventos transforma a não-ficção em ficção. Ao utilizar uma citação, a troca de palavras que não seja para corrigir erros gramaticais deve ser sinalizada ao público. Ao utilizar citações que não testemunhou, o jornalista também deve indicar que a reconstituição deste diálogo foi precedida de verificação. Outra questão está no fato de que o público deve ser informado sobre “como sabemos o que sabemos”: quais são nossas fontes, o que essas fontes sabem, que preconceitos elas demonstram e, principalmente, se há relatos conflitantes com os delas.
Isto traduz o que os autores chamam de “regra da transparência”, que é o elemento mais importante para a melhoria da disciplina da verificação. É ela que permite que o público julgue a validade da informação veiculada, o processo através do qual ela foi obtida e os motivos pelos quais o jornalista julgou importante transmiti-la. Concomitantemente, o empenho do jornalista em ser transparente é fundamental para mostrar seu compromisso com a verdade, é uma das chaves para a credibilidade.
Tal e qual o princípio que orienta o método científico, o jornalismo deve explicar como conseguiu determinada informação e porque confia nela: é isto o que vai fazer com que o público possa e queira reproduzir esta informação. Afirmar simplesmente que “fontes disseram” é uma violação à regra da transparência.
Por outro lado, esta regra da transparência também vale para a relação dos jornalistas com suas fontes, não só porque que elas devem ser informadas sobre o ângulo real da matéria como também porque a negociação do anonimato deve levar em conta os desvios de interesse. Da mesma forma, é preciso avaliar meticulosamente a validade da utilização do disfarce clandestino, aquele que engana a fonte para conseguir informação. Esta avaliação deve, segundo os autores, seguir três princípios: a informação a ser adquirida deve ser vital ao interesse público; o recurso do disfarce está sendo utilizado porque não existe outra forma de conseguir a informação; o público deve ser alertado de que o jornalista manipulou a fonte, explicando a importância da informação para o interesse público e o fato de que esta manipulação foi a única maneira possível de conseguir a informação.
Os autores também listam uma série de técnicas para a disciplina da verificação, a saber:
1. fazer uma edição cética, ou seja, questionar as matérias sem, com isto, estar questionando a integridade do jornalista- o método consiste em julgar uma matéria linha por linha, declaração por declaração, editando as afirmações e os fatos de forma a remover não só os erros factuais como também os erros inconscientes de afirmação e de narrativa (coisas que as pessoas “acreditam” que são verdadeiras);
2. fazer uma lista de exatidão, através da qual o editor deve responder a seis perguntas- o lide da matéria tem consistência?; alguém rechecou os dados da matéria?; as informações colhidas permitem entender a matéria completa?; todas as pessoas que aparecem na matéria estão identificadas e tiveram a oportunidade de emitir seus pontos de vista?; a matéria toma partido ou faz julgamentos de valor?; todas as declarações são exatas e bem atribuídas, captando com precisão o que disseram os entrevistados?;
3. aproximar-se das fontes básicas, evitando repetir sem verificação os relatos ou informações oficiais- a técnica consiste em cruzar os dados referentes ao que é/foi divulgado com a checagem individual com quem/o que divulgou.
Em todas estas técnicas de verificação, os autores ressaltam a importância do comprometimento com a verdade, ou seja: os jornalistas devem aplicar métodos transparentes e sistemáticos de verificação para poderem, como diz BUCCI, fazer com que as pessoas entendam os fatos, o que é, quase sempre, entender o discurso que eles procuram articular por meio dos relatos jornalísticos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Aspectos gerais da história da imprensa

De acordo com SODRÉ (1983), a história da imprensa tem relações profundas com a história do desenvolvimento capitalista. Isto se justificaria de duas formas. Primeiro porque a uniformidade, que é a regra geral da ordem capitalista, é também um fator determinante no que se refere à influência que a mídia impressa exerce sobre os comportamentos, padronizando-os através da universalização de valores éticos e culturais. Em segundo lugar, está a questão da liberdade de opinião e de informação.
A invenção da prensa de tipos móveis por Guttenberg se deu numa fase de prelúdio mercantilista, na qual as trocas (fossem elas materiais ou não, como no caso de idéias, informações e opiniões) interessavam apenas a pequenos grupos e eram controladas pela autoridade governamental. Com o tempo, estes pequenos grupos se consolidaram como poderosas forças econômicas e passaram a reclamar a liberdade em relação às trocas. Nascia, assim, o princípio da liberdade de imprensa, uma vez que, entre estas “trocas”, estava a troca de idéias, informações e opiniões. Nos Estados Unidos, por exemplo, a ausência de um passado feudal permitiu que, com a independência, houvesse o alargamento da liberdade de impressa. Já na Inglaterra, a chamada stamp tax durou até a metade do século XIX.
Neste cenário, fica fácil entender porque os Estados Unidos ganharam, desde cedo, a corrida para a revolução nas técnicas da imprensa, apesar de ter sido o londrino The Times o primeiro a utilizar a máquina a vapor em sua impressão. Obviamente, estas revoluções permitiam a produção em massa por baixo custo e a aceleração da circulação, o que combinava com o surto demográfico das concentrações urbanas, marcadas, entre outras coisas, pela ascensão da democracia política e da alfabetização. Assim, mais jornais chegando mais rapidamente para mais gente que lia mais era uma situação que apontava diretamente para a necessidade de conquistar os novos mercados que surgiam; era uma forma acelerar a veiculação de idéias, opiniões, informações e... Mercadorias.
SODRÉ (1983) nos diz ainda que, conforme o capitalismo avançava, a estratégia da imprensa era a de atingir rapidamente os milhares de leitores. Dessa forma, a multiplicação vertiginosa de exemplares e sua distribuição veloz eram necessárias. O jornal tornou-se vetor e produto de consumo em uma nova era na qual as trocas não se resumiam apenas ao que é excedente, mas sim ampliavam-se a tudo que, mesmo que fosse moral ou físico, pudesse ser mercantilizado: a era da venalidade universal.
Os jornais precisaram, então, reconfigurar seus conteúdos e seu formato. Atingindo as massas urbanas com notícias ligadas às questões judiciárias, aos crimes e às paixões, a imprensa alimentava os indivíduos com os escândalos típicos da sociedade capitalista Além disso, a ligação entre a imprensa e as demais formas de produção conferiu importância à propaganda. Tudo isto fez com que o jornal precisasse aumentar o número de páginas: mais relatos e mais anúncios fizeram com que o pequeno jornal, semelhante ao livro, ganhasse os contornos atuais. Foi o que aconteceu com os americanos The Sun e Morning Herald. Ao mesmo tempo, outros jornais, como o Tribune, se recusavam a noticiar crimes e escândalos e optavam pela força editorial, pela predominância da opinião em relação à informação, o que se mostrou ineficiente em episódios como a Guerra da Secessão, que multiplicou a ação dos correspondentes no palco dos acontecimentos.
No tocante especificamente à prática jornalística, LAGE (2001) ressalta que a atividade da reportagem é quase inexistente em 200 dos 400 anos da história da imprensa. Quando surgiu, no início do século XVII, o jornalismo se preocupava com o discurso retórico de exaltação do Estado ou da religião, imitando o padrão dos grandes autores que surgiam em Portugal (Camões), na Espanha (Cervantes), na Inglaterra (Shakespeare) e na França (Molière). Ligados à burguesia, os jornais passaram a difundir seus ideais, publicando fatos de interesse comercial e político, mas dando ênfase ao que se chama de “artigo de fundo” ou “editorial” - um texto opinativo escrito pelo editor. Esta estrutura do jornal fixou a imagem do jornalista como “publicista”: um sujeito que se ocupava de orientações e interpretações políticas com um estilo semelhante ao dos discursos e proclamações. “A linguagem dominante ficava entre a fala parlamentar, a análise erudita e o sermão religioso”, afirma LAGE (2001, p.11). No século XVIII, por exemplo, a Revolução Francesa foi marcada por grandes figuras identificadas como publicistas.
Ratificando o que abordamos anteriormente com SODRÉ (1983), LAGE (2001) nomeia o século XIX como “o século dos tipógrafos”, devido à mecanização que chegou à indústria gráfica a reboque da Revolução Industrial. A ampla tiragem e o amplo consumo dos jornais, bem como a dependência financeira dos anunciantes, tiveram como conseqüência a mudança de estilo no conteúdo das publicações: a retórica do jornalismo publicista não funcionava frente à nova leva de leitores, pertencentes a uma cultura popular objetiva. A conquista desta nova leva de leitores, por sua vez, levou a uma acirrada concorrência entre os jornais, que passaram a ter um caráter ao mesmo tempo educador e sensacionalista.
A característica educativa do jornalismo desta época se explica pelas mudanças radicais no comportamento e nas relações dos homens, que deixavam para trás uma certa perenidade da vida no campo para se aventurarem na multidão de estranhos que compunham as novas populações urbanas. O frêmito das cidades e a necessidade de entender a dinâmica de suas relações fizeram com que o jornalismo ensinasse às pessoas o que ver, o que ler, como se vestir e como se portar. Concomitantemente, a função educativa de socialização demandava fórmulas eficazes de mobilização dos leitores, ou seja: era preciso envolvê-los e emocioná-los. Era preciso provocar sensações nestes leitores – daí o sensacionalismo.

“O paradigma para isso era a literatura novelesca: o sentimentalismo, para as moças; a aventura, para os jovens; o exótico e o incomum, para toda a gente. A realidade deveria ser tão fascinante quanto a ficção e, se não fosse, era preciso fazê-la ser”. (LAGE: 2001, p.15)

Para o autor, o jornalismo publicista dos séculos XVII e XVIII e o jornalismo educador e sensacionalista do século XIX foram seguidos pelo jornalismo-testemunho do século XX. De acréscimo cultural e recreação, o jornalismo se tornou essencial à vida dos homens, fazendo com que a informação, principalmente a informação especializada, circulasse de forma simplificada. O jornalista se torna um tradutor de discursos, confrontando diferentes perspectivas e selecionando fatos e opiniões que permitam que o leitor se oriente diante da realidade. Sob a idéia de “inovação cultural”, a concepção de jornalismo a que isto remete vai ao encontro da afirmação de MELO (2006) de que “o jornalismo é um fenômeno universal com raízes européias”.
Para particularizarmos nosso estudo em relação ao jornalismo brasileiro, não basta levar em conta os modelos trazidos pelos portugueses: segundo MELO (2006), é preciso considerar também os aspectos comunicacionais dos movimentos migratórios; as questões de dependência tecnológica e econômica; as influências conjunturais; as contingências históricas. Em suas raízes, o jornalismo brasileiro baseia-se em um modelo português determinado por influências britânicas e francesas que, mais tarde, também sofreu intervenções italianas, alemãs e espanholas e cujo maior impacto se deu pelo jornalismo norte-americano, principalmente através de suas agências noticiosas e pela importação de sua tecnologia. Para MELO (2006), esta torrente de influências, porém, não evitou que o jornalismo brasileiro se estruturasse de forma criativa e adquirisse uma feição diferenciada.

“Praticamos sempre formas de expressão jornalística que, a não ser residualmente, deixaram de seguir o exacerbado panfletarismo francês e tampouco absorveram o receituário da objetividade norte-americana. Construímos um arcabouço narrativo, onde o real transparece com nitidez, dissimulando embora as conotações ideológicas, sem contudo esconder as nuances da política editorial que tornaram diferentes as instituições jornalísticas.” (MELO: 2006, p.70)

Para o autor, os gêneros opinativos (coluna, crônica, comentário, resenha, editorial, caricatura, carta) brasileiros se distanciaram dos norte-americanos, dos italianos, dos alemães e dos espanhóis quando assumiram uma feição eminentemente opinativa. MELO (2006) ressalta que, no Brasil, as colunas se traduzem como núcleos de poder; que a crônica se configurou como relato poético com sentido político; que a resenha, distante da profundidade característica do jornalismo francês e norte-americano, se alimenta de produtos culturais que promovem a indústria da cultura; que o editorial reproduz em sua estrutura o modelo do discurso aristotélico e funciona como conversação com os poderosos; que a caricatura, em vez de tradução gráfica do editorial, interpreta o comportamento coletivo, ironiza o cotidiano e satiriza os personagens de acordo com o “estilo maroto da gozação nacional”; e que a carta do leitor mostra a sutileza de por na fala do cidadão comum as críticas que, por conveniência, não estão na reportagem.
Como grifo destas idiossincrasias, BARBOSA (2007) propõe uma leitura (no sentido estrito da palavra, ou seja, como interpretação crítica) dos jornais do Rio de Janeiro durante o século XX. Antes disto, as inúmeras configurações do periodismo carioca têm como marco a Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal impresso da cidade (1808) e que era controlado pela Coroa Portuguesa. Segundo BARBOSA (2007), a imprensa do século XIX na cidade divide-se entre a “oficial” e a “oficiosa” (que reproduzia a fala oficial para se beneficiar da proximidade ao poder). Com a fundação do anti-lusófilo Aurora Fluminense e do inicialmente moderado Jornal do Commercio, a base da produção editorial dos jornais passa a se caracterizar pela construção de um discurso político: ambos os jornais prepararam e propagandearam os movimentos que levariam à abdicação de D. Pedro I. Mas é a partir de 1870 que ocorre uma mudança radical no perfil dos veículos impressos, uma vez que se ampliam os debates e as polêmicas sobre as questões republicanas e abolicionistas.

“No cenário de uma cidade que vive uma nova cultura política, a imprensa passa a ampliar essas discussões. Construindo idéias dominantes num jornalismo de viés exclusivamente opinativo. É nessa conjuntura que se instala a imprensa abolicionista”. (BARBOSA: 2007, p.16)

Antecedidos por pasquins que criticavam a escravidão na primeira metade do século XIX, a imprensa abolicionista toma corpo a partir de 1870, tendo o Cidade do Rio (1887), de José do Patrocínio, como principal jornal abolicionista do Rio de Janeiro. As idéias antiescravistas tomam, então, uma enorme atenção pública.
Dialogando com a imprensa desta época, o estudo de BARBOSA (2007) envereda pelo século XX, partindo das intensas tecnologias e inovações que marcaram o início do período: máquinas a vapor, linotipos, tiragens de milhares de exemplares, vendas avulsas, textos literários, etc., fazem com que o jornal chegue “barato, popular e fácil de fazer” ao século XX. BARBOSA (2007) nos mostra que, nele, as duas primeiras décadas trazem a proliferação e a consolidação de revistas como Revista da Semana (1900), O Malho (1902) Careta (1907) e Fon-Fon (1908). A década de 1920 é marcada pelas notícias sensacionais, que mesclam o dia-a-dia do leitor à estética melodramática, principalmente em A Manhã (no qual trabalhou Nelson Rodrigues) e em A Crítica; pelas tragédias sentidas através das narrativas dos repórteres; pelo sucesso do noticiário policial de A Noite; pela formação dos primeiros conglomerados de imprensa; pelas conspirações do dono de O Jornal, Assis Chateaubriand, contra o governo de Washington Luís. Nos anos 1930, BARBOSA (2007) ressalta que a complexidade das relações políticas se reflete na configuração do jornalismo do Rio de Janeiro. O jornalismo do período do Estado Novo de Getúlio Vargas é marcado pela censura à imprensa e pelos aparelhos de repressão (como o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda); pela exclusividade de divulgação dada ao Estado e pela inclusão da voz do povo em outros lugares midiáticos; pelo lugar social e político do jornalista diante da batalha de e pelo poder.
BARBOSA (2007) também ressalta os aspectos de uma imprensa do Rio de Janeiro que, entre 1900 e 1950, também existe como figuração literária, na qual são abordados o cotidiano das redações e as múltiplas relações dos leitores com as publicações; e através da qual destaca-se o poder simbólico dos periódicos e revela-se o prestígio daqueles que representam o mundo para o público: os homens da imprensa. Dentre estas obras, a autora destaca As recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, “que remonta o dia-a-dia da redação do fictício jornal O Globo – na verdade o Correio da Manhã”.

“A revolução da imprensa no início do século, as contradições do jornalismo, as autoconstruções engendradas pelos periódicos para se tornarem representativos de toda a sociedade aparecem, portanto, nas obras literárias. Da mesma forma, o movimento em direção ao sensacionalismo também vai ser imortalizado pela literatura”. (BARBOSA: 2007, p.129)

Como “fábrica de notícias”, os jornais consolidam seu poderio e seu prestígio na primeira metade do século XX, dando status social ao jornalista. Mas é na década de 1950 que a modernização atinge os jornais de forma a revolucionar seus conteúdos, sua estética e sua estrutura. Indo ao encontro do desenvolvimentismo de JK, os periódicos mais importantes do Rio de Janeiro passam por transformações que redefinem o próprio campo do jornalismo. Neste sentido, BARBOSA (2007) aponta a reforma do Diário Carioca como o marco para a caracterização da narrativa jornalística como neutra e imparcial.

“O que se procura construir naquele momento é a autonomização do campo jornalístico em relação ao literário, fundamental para a autoconstrução da legitimidade da própria profissão. Assim, as reformas dos jornais da década de 1950 devem ser lidas como um momento de construção, pelos próprios profissionais, do marco fundador de um jornalismo que se fazia moderno e permeado por uma neutralidade fundamental para espelhar o mundo. A mítica da objetividade – imposta pelos padrões redacionais e editoriais – é fundamental para dar ao campo lugar autônomo e reconhecido, construindo o jornalismo como a única atividade capaz de decifrar o mundo para o leitor”. (BARBOSA: 2007, p. 150)

É o mito da objetividade que faz com que a enunciação da verdade dos acontecimentos legitime o jornalismo, que se constitui como o registro factual por excelência. Ao narrar o mundo, o jornalismo funciona como um suposto espelho da realidade para o leitor e “os jornalistas idealizam a profissão e o papel que devem ter na sociedade” (BARBOSA: 2007, p.151). Informação neutra, imparcialidade, linguagem padronizada, lide e copidescagem passam, definitivamente, a fazer parte da prática e do jargão jornalísticos. A imagem de independência e de neutralidade passa a ser fundamental para a imprensa, que desempenha funções políticas, de propaganda, de polícia e de grande influência moral e cultural.
Esteticamente, a grande revolução da década de 1950 fica a cargo do Jornal do Brasil que, a partir de 1956, realiza uma ampla reforma gráfica, dando ao jornal características visuais que perduram até hoje. Ao mesmo tempo, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca cristalizam normas precisas para a produção das narrativas noticiosas, lançando o que até hoje orienta os profissionais dos jornais: o manual de redação. O jornalismo se profissionaliza: as reuniões diárias são introduzidas no cotidiano das redações; as editorias são organizadas; os arquivos e departamentos de pesquisa são criados; o repórter passa a ser um egresso de cursos especializados.
É em meio a uma intensa modernização que a imprensa carioca entra nos anos 1960, a década na qual começará a ter de conviver com uma televisão cada vez mais forte e presente no dia-a-dia do país. A cena cotidiana é invadida e permeada por imagens que dialogam com o público e com o popular, ao mesmo tempo em que a censura afasta os jornalistas do campo político. Inicialmente, com o golpe de 1964, os grandes periódicos da cidade apoiaram os militares, sendo contra o que alguns chamavam do “festival de demagogia e indisciplina” do governo João Goulart. Em pouco tempo, a maioria deles se colocaria contra o regime ditatorial, principalmente depois da investida dos militares contra as redações do Correio da Manhã, O Globo, da Tribuna da Imprensa e da Última Hora. BARBOSA (2007), porém, chama a atenção para a idealização da atuação da imprensa neste período.

“Há, também, idealização na divulgação recorrente do discurso de que a imprensa luta bravamente – de maneira indiscriminada e genérica – contra a ação da censura. Na prática, esta luta não é tão uníssona, como também se observam acomodações. Como uma empresa que procura aferir lucros e ganhos simbólicos, a imprensa se defronta entre a construção de um discurso que a coloca num lugar heróico e a sua própria sobrevivência no mercado jornalístico e de bens simbólicos”. (BARBOSA: 2007, p.187)

Além disso, a autora também destaca a atuação diferenciada da censura em relação aos periódicos que, para os ditadores, deveriam não só “informar” como também “orientar” o povo. Instaura-se, a partir de 1968, com o Ato Institucional n° 5, a censura prévia. Como antecipação às represálias, os jornais passaram a se autocensurar, controlando antecipada e voluntariamente as informações a serem veiculadas. A sobrevivência de vários jornais é ameaçada e a imprensa carioca entra nos anos 1970 marcada pelo desaparecimento de vários deles.
Nesta fase, O Globo e O Dia são os jornais de maior tiragem na cidade e, ao lado do Jornal do Brasil, são os sobreviventes protagonistas da crise que assola a imprensa (principalmente pelo alto custo do papel). Juntos, detinham 90% dos leitores. O Globo introduz a impressão em off-set, que oferece "boa qualidade a custos compensadores, precisão na impressão em cores, perfeito registro, grandes tiragens com muita rapidez e impressão de várias cores em uma única operação” (RABAÇA & BARBOSA: 2001, p.521), além de permitir a impressão em diversos tipos de papéis e materiais. Paralelamente, O Dia, além de incorrer no clientelismo, privilegia, por aproximação ou distanciamento, o cotidiano dos leitores, através de narrativas que simulam experiências de vida e editando temas ligados ao mundo do trabalho. Ao inaugurarem o que BARBOSA (2007) chama de “o novo sensacionalismo”, os textos de O Dia

“Trazendo o mundo do leitor para as páginas da publicação, ofertando esse mesmo mundo aos seus sentidos criam, pelo ato narrativo, a possibilidade de transformação da realidade. Lendo as notícias de um mundo próximo, visualizando a fantasia ao lado da realidade, abre-se também ao leitor a possibilidade do sonho”. (BARBOSA: 2007, p.218)

Na década de 1980, o jornal é vendido e passa por uma reformulação que o leva a atingir também as classes A e B. A imprensa passará a incorporar as tecnologias da informática, e os três “sobreviventes” – O Globo, O Dia e Jornal do Brasil - do Rio de Janeiro, após a informatização de suas redações, compõem suas edições em papel em sinergia com suas versões on line.

Bibliografia: SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1983. // LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001. // MELO, José Marques de. Teoria do jornalismo: identidades brasileiras. São Paulo: Paulus, 2006. // BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa. Rio de Janeiro: Mauad, 2007 // RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de comunicação. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Uma leitura de Vanoye: aspectos iniciais para entender a linguagem escrita

Referência bibliográfica: VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

Podemos medir a quantidade de informação de uma mensagem independentemente de seu sentido. Isso equivale a dizer que a quantidade de informação está diretamente ligada à sua probabilidade: quanto mais imprevisível for a mensagem, maior será sua quantidade de informação.
Além disso, se o grau de probabilidade da mensagem for grande e se seus signos forem facilmente identificáveis, a informação será pequena (ou até nula) e sua identificação será fácil e rápida. Por outro lado, se a mensagem for excessivamente surpreendente, a probabilidade de haver informação corre o risco de ser nula também!
É por isso que podemos afirmar que a mensagem mais econômica é aquela que veicula o maior número de informações com o menor número de signos e cujas informações comportam o máximo possível de originalidade.
Precisamos também atentar para o fato de que, para que haja comunicação, é preciso haver um código comum. Ou seja: é preciso “falar a mesma língua”, como costumam dizer por aí. Só que, quando isso entra no domínio da língua portuguesa, surge a pergunta: nós falamos uma única língua ou falamos várias línguas portuguesas? Nossa língua está sujeita a várias influências, que vão do ambiente geográfico ao social, passando pela cultura.
E daí?!
Daí que essas diferentes influências nos levam a constatar que existem VÁRIOS NÍVEIS DE LINGUAGEM, que influenciam o vocabulário, a sintaxe e até a pronúncia do que estamos querendo dizer. É por isso que devemos prestar atenção a esses níveis de linguagem: porque eles determinam o bom funcionamento da comunicação. Tentar adaptar a nossa própria linguagem à do interlocutor já é efetuar um ato de comunicação. Uma comunicação que, assim, vai envolver uma REELABORAÇÃO.

Uma leitura de Vanoye: a escolha de palavras e a expressividade na linguagem escrita

Referência bibliográfica: VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

LÉXICO é o conjunto de palavras de uma língua peculiar a um grupo social ou a um indivíduo. Na prática, uma pessoa conhece apenas uma pequena parte desse vasto conjunto e, ao falar ou escrever, emprega apenas uma fração do que conhece. Ao escolher determinadas palavras para compor seu discurso, o indivíduo está fazendo uma SELEÇÃO LÉXICA para imprimir o sentido desejado àquilo que quer comunicar.
Ao estudo do sentido das palavras dá-se o nome de SEMÂNTICA, que é o saber que tenta distinguir os diversos aspectos do sentido dado a uma palavra. Alguns desses aspectos são:
a) o aspecto cognitivo (baseado no conhecimento objetivo);
b) o aspecto afetivo (baseado nos sentimentos pessoais);
c) o aspecto denotativo (que remete ao significante);
d) e o aspecto conotativo (que sugere ou evoca algo subliminar).
A comunicação pressupõe que os indivíduos têm um repertório de palavras em comum e que as compreendem da mesma forma. É por isso que o entendimento acerca das palavras concretas é mais fácil do que o entendimento sobre as palavras abstratas, que têm significado mais disperso. Ou seja: para haver compreensão, é preciso que uma palavra apresente um certo grau de uniformidade para vários indivíduos.
Paralelamente, precisamos também atentar para o conjunto de significações que uma palavra assume num determinado enunciado. A isso, damos o nome de CAMPO SEMÂNTICO. Dessa forma, podemos deduzir o sentido que uma palavra assume num determinado enunciado, podemos determinar que denotação ou conotação ela assume neste enunciado em particular.
Por isso não esqueça: o LÉXICO e o SEMÂNTICO das palavras são essenciais para quem quer se expressar com eficácia e, assim, comunicar/informar o que deseja.
A língua falada tem recursos expressivos próprios que envolvem a acentuação, a entonação, as pausas, a fluência etc. Com a acentuação e a fluência, por exemplo, colocamos em relevo uma sílaba ou um grupo de sílabas e recortamos a mensagem em grupos identificáveis. Da mesma forma, a entonação e as pausas dão relevo expressivo a certos aspectos da mensagem, de forma que ela pode transmitir tipos diferentes de informação.
Como já afirmamos anteriormente, o Brasil é um país extremamente oralizado. Por isso... Como traduzir esta expressividade oral para a escrita? Segundo o autor Francis Vanoye, esta tradução se dá pela representação aproximada do que foi pronunciado. Aí, a melhor opção é empregar o ESTILO DIRETO. Mas, apesar da transcrição de um diálogo repetir um discurso, as características específicas da língua falada exigem determinadas técnicas de escrita.
Isso se dá porque a língua escrita é menos “econômica” que a língua falada. Ela dispõe do recurso da PONTUAÇÃO para transcrever certas características da língua falada. Para Vanoye, a pontuação tem uma função lógica: ela recorta o discurso em grupos de palavras e evita os erros de interpretação. É claro que devemos, na escrita, tirar partido dos recursos expressivos da língua falada, adotando uma sintaxe menos rígida para facilitar a transmissão de informação. Mesmo assim, é preciso, como diz Vanoye, ressaltar que:
a) não se pode perturbar a estrutura de uma língua de um dia para outro sem confundir seus usuários;
b) a ortografia promove uma certa coesão das mensagens escritas, dando forma e clareza ao discurso escrito.
O que você deve ter sempre em mente quando estiver escrevendo é o fato de que o seu texto deve ser o mais persuasivo possível, para que você possa transmitir com a máxima exatidão o que deseja. Aqui, nós voltamos para os gregos. Há muito tempo eles já se preocupavam com isso. Não é à toa que devemos a eles (e a Aristóteles em particular) a arte do bem dizer: a RETÓRICA.

Uma leitura de Vanoye: a retórica, suas figuras e funções

Referência bibliográfica: VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

A retórica ou a arte do bem falar consistia em um conjunto de técnicas destinadas a regrar a organização do discurso de acordo com os objetivos a serem atingidos. Era um meio de chegar ao domínio da linguagem verbal. Só que, com o tempo, a retórica se reduziu a uma técnica de ornamentação do discurso, tornando-se sinônimo de afetação ou de declamação falsa. De uns tempos para cá, o estudo sobre esta técnica tem deixado de lado seus aspectos pejorativos. Como ensina a compor e a organizar o discurso, a retórica faz distinção entre várias etapas. Vamos a elas:
1) encontrar o que se vai dizer, ou seja, encontrar argumentos;
2) dispor os argumentos numa ordem que depende do objetivo traçado, ou seja, dispor os argumentos com a intenção de informar;
3) construir um plano de trabalho e cuidar da elaboração do discurso, tendo em vista o modo de apresentação dos argumentos.
É justamente no modo de apresentação dos argumentos que a retórica vai se utilizar das FIGURAS DE LINGUAGEM. Entre elas, podemos destacar:
1) a aliteração, que repete um som ou um grupo de sons como, por exemplo, em “o rato roeu a roupa do rei de Roma”;
2) a paronomásia, que aproxima termos vizinhos pela sonoridade e não pelo sentido como, por exemplo, em “quem viver, verá”;
3) a hipérbole, que é a mais exagerada das figuras, como verificamos na expressão “história escrita com sangue”;
4) a perífrase, que usa muitas palavras para dizer o que poderia ser expresso em apenas uma, quando, por exemplo, usamos “a estação das flores” em vez de “primavera”;
5) a metáfora, quando um termo substitui outro por analogia, numa comparação que não explicita o termo comparado, como quando, por exemplo, dizemos “ele é uma porta” para dizer que alguém é “teimoso como uma porta”;
6) a metonímia, que exprime um objeto por um termo que designa outro objeto, como em “ele comeu todo o prato”; a metonímia pode exprimir o todo pela parte ou a parte pelo todo.
Além disso, também há o eufemismo, que consiste em amenizar uma idéia desagradável. Isso acontece, por exemplo, quando um aluno que é surpreendido com uma “cola” diz ao professor que o flagrante é apenas um “resumo” ou um “lembrete” da matéria da prova...
Na produção de um discurso, a linguagem pode assumir diferentes funções: manter contato entre o escritor e o leitor, exprimir sentimentos de quem escreve, explicar algo diretamente e até confundir quem está lendo. Tudo vai depender dos seis elementos que estão implicados no processo de comunicação: emissor, receptor, referente, canal, código e mensagem. Vamos a elas:
1) função expressiva- é aquela centrada sobre o emissor; é tudo aquilo que, na mensagem escrita, revela a personalidade e a opinião de quem escreve e, por isso, tem função emotiva;
2) função conativa- é aquela que remete ao destinatário da mensagem, usando muito os imperativos e que, por isso, tem função apelativa;
3) função referencial- é a que informa objetivamente sobre determinada realidade, ou seja, está centrada no referente da mensagem e, assim, tem função informativa ou cognitiva;
4) função fática- é aquela que se preocupa em manter a comunicação, o contato entre emissor e receptor, ou seja, está centrada no canal estabelecido e, por isso, tem função interlocutória;
5) função metalingüística- é a que está centrada sobre o código que está sendo utilizado para comunicar, ou seja, quando a linguagem é usada para falar da própria linguagem;
6) função poética- é aquela centrada na mensagem, colocando seu sentido em um plano inferior e privilegiando os jogos possíveis de sua estrutura.
É importante frisar que essas funções da linguagem dificilmente se encontram sozinhas em uma mensagem. Geralmente, elas se superpõem. Estar ciente disso é fundamental não só para a produção como também para a análise de textos e enunciados.

Para entender estrelas e textos: aspectos introdutórios sobre a produção de discurso

Referências bibliográficas: ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Editora Ática, 2003. / GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo: Editora Scipione, 1999. / SOUZA, Luiz Marques de. & CARVALHO, Sérgio Waldeck. Compreensão e produção de textos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. / VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

De acordo com o autor Antônio Suárez Abreu, o discurso pode ser comparado às estrelas. Olhando para elas, estamos avistando o passado, uma vez que aquilo que vemos é a luz emitida por elas há milhões de anos. Mesmo que não existam mais, ainda podemos vê-las através dessa luz emitida em tempos remotos. Ao lermos um texto, esse processo se repete com o discurso que há nele: o sentido emitido pelo escritor só se completa quando suas palavras chegam até nós. Tal e qual a luz das estrelas, o discurso é dinâmico: pode ser repetido infinitamente, sempre de formas diferentes, dependendo do repertório de seus leitores. Ou seja: para entender estrelas e textos, não basta apenas olhar para eles.
Aqui, vale a pena a gente dar uma paradinha para refletir sobre a definição de Padre Antônio Vieira (1608-1697) acerca da técnica do discurso.

“Aprendemos no céu o estilo da disposição e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo (...): muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo: as estrelas são muito distintas e muito claras e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito o que entender os que sabem.”

Para entender um texto, não basta basear-se em seu conteúdo semântico específico: é preciso também entender a intenção de seu produtor (emissor), a sua ENUNCIAÇÃO ou o seu ATO ILOCUCIONAL. Só que, muitas vezes, a enunciação não está presente num texto, o que torna o ato de ler algo muito maior que simplesmente entender o que está escrito; é conseguir, a partir do nosso repertório, perceber as intenções (ou enunciações) do emissor quando ele CODIFICOU (ou elaborou) esse texto. Quando o leitor foi capaz de realizar o percurso de ler o texto associando-o à intenção/enunciação (do discurso) do emissor, ele conseguiu DECODIFICAR este texto.
Um texto é o produto estático e definitivo de uma enunciação. É como uma estrela. Mas, nele, há algo dinâmico: o discurso, que é um processo que começa quando o emissor realiza a codificação e “termina” quando o receptor cumpre a tarefa de decodificação. É a luz emitida por uma estrela. O discurso está para o texto como a luz está para a estrela.

Para entender estrelas e textos: coesão e coerência

Referências bibliográficas: ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Editora Ática, 2003. / GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo: Editora Scipione, 1999. / SOUZA, Luiz Marques de. & CARVALHO, Sérgio Waldeck. Compreensão e produção de textos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. / VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

Dizem por aí que as estrelas estão expostas a um balanço de forças: gravidade e expansão. É justamente a força de gravidade que atua como forma de coesão das partículas de uma estrela. Um texto também está exposto a determinadas formas de COESÃO (que, obviamente, não têm nada a ver com a gravidade!). Ou seja: um texto não é simplesmente uma unidade constituída por uma soma de sentenças e/ou palavras e sim pelo ENCADEAMENTO SEMÂNTICO delas. Este encadeamento forma uma TRAMA SEMÂNTICA à qual damos o nome de TEXTUALIDADE. Assim, podemos afirmar que o encadeamento semântico que produz textualidade é chamado de COESÃO.
É através da coesão que recuperamos, em uma sentença (B), um termo presente em uma sentença (A). Na língua oral, a maioria das pessoas constrói a textualidade razoavelmente bem. Mas, quando se trata de escrever um texto, repetimos de forma feia e desagradável palavras como “mesmo(a)” e “referido(a)”. Não é difícil evitar isso: basta usarmos os MECANISMOS DE COESÃO da nossa língua para construirmos a textualidade. Vejamos alguns deles:
1) coesão por referência- se dá através de pronomes pessoais (ele, ela), pronomes desmonstrativos (esse, isto), advérbios de lugar (lá), artigos definidos;
2) coesão por elipse- quando uma palavra retoma um elemento anterior citando-o de forma subentendida;
3) coesão lexical- é a utilização de palavras ou expressões sinônimas que retomam um elemento já citado;
4) coesão por metonímia ou substituição- quando utilizamos a parte pelo todo ou o todo pela parte.
Estes quatro mecanismos de coesão (por referência, por elipse, lexical e por metonímia) são chamados de COESÃO TEXTUAL POR ARTICULAÇÃO SEMÂNTICA. Além de evitar o uso das palavras “mesmo(a)”e “referido(a)”, a coesão por articulação semântica também evita um ato ilocucional que a retórica chama de anáfora: a repetição pura e simples de um mesmo termo em todas as sentenças.
Agora, vamos passar para a COESÃO TEXTUAL POR ARTICULAÇÃO SINTÁTICA. Seus mecanismos podem ser divididos em cinco:
1) articulação sintática de oposição- se dá pela coordenação adversativa ou pela subordinação concessiva; a coordenação adversativa implica a utilização de articuladores como o mas, que significa oposição; já a subordinação concessiva é feita através do uso de articuladores como ainda que e apesar de, expressões que, quando usadas no início de uma sentença, já dão ao leitor uma idéia de oposição ao que está sendo afirmado;
2) articulação sintática de causa- seus principais articuladores podem ser conjunções e locuções conjuntivas como porque, como, já que ou preposições e locuções prepositivas como devido a, em conseqüência de;
3) articulação sintática de condição- seu principal articulador é o se, mas ela também se dá através de palavras e expressões como caso, desde que, a menos que e a não ser que;
4) articulação sintática de fim- a maneira mais comum de manifestar finalidade é através do uso do para, mas os articuladores a fim de, com o propósito de, com a intenção de e com o objetivo de também podem ser usados;
5) articulação sintática de conclusão- para articular uma conclusão, então, assim, por isso e de modo que podem ser usados.

Nós já estudamos o fato de o discurso ser um processo dinâmico que envolve a codificação por parte do emissor e a decodificação por parte do receptor. Tanto uma como outra envolvem a enunciação, ou seja, a decodificação implica que o leitor (receptor) refaça este discurso. É justamente na refacção deste percurso que reside a COERÊNCIA de um texto: se o leitor foi capaz de interpretar a intenção de quem escreveu, então, este texto tem coerência.
Sobre isso, vale a pena lembrar um fato curioso que ocorria durante os anos da ditadura militar no Brasil. Na década de 70, o Jornal da Tarde costumava publicar receitas culinárias toda vez que uma matéria era censurada. A maioria dos leitores entendia a intenção com que isso era feito. Assim, a publicação de uma receita de bolo de laranja no meio do caderno de política tinha coerência: o leitor compreendia que, ali, uma informação havia sido censurada.

Para entender estrelas e textos: a polifonia

Referências bibliográficas: ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Editora Ática, 2003. / GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo: Editora Scipione, 1999. / SOUZA, Luiz Marques de. & CARVALHO, Sérgio Waldeck. Compreensão e produção de textos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. / VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

Quando produzimos um texto, nem sempre somos a única voz presente. Podemos colocar, explicitamente ou de forma indireta, uma ou mais pessoas falando além de nós. Isso é facilmente verificável em matérias e reportagens de jornais e revistas, nas quais o repórter, ao narrar um acontecimento, introduz a voz de seus participantes e observadores.
Para introduzir a voz de outra pessoa em nosso texto, é comum usarmos verbos como dizer, explicar ou afirmar, além de outros não tão neutros como enfatizar, advertir, ponderar ou confidenciar. De qualquer forma, precisamos ter muito cuidado com o uso de verbos que se referem às declarações de terceiros, para não corrermos o risco de manipular equivocadamente a fala dos outros.
Esta fala, por sua vez, se apresenta através de três formas de discurso: DIRETO, INDIRETO e INDIRETO LIVRE. Vamos a elas:
a) discurso direto- é a transcrição da fala de alguém, que pode ser organizada de duas formas diferentes; (1) na primeira explicamos quem vai falar, colocamos o sinal gráfico dos dois pontos (:), abrimos aspas (“), transcrevemos a fala com a primeira letra da primeira palavra na forma maiúscula, fechamos aspas (“) e colocamos o sinal gráfico do ponto (.); (2) na segunda, começamos abrindo aspas (“), transcrevemos a fala com a primeira letra da primeira palavra na forma maiúscula, fechamos aspas (“), colocamos o sinal gráfico da vírgula (,), o verbo, explicamos quem está falando e colocamos o sinal gráfico do ponto (.). Ou seja:
(1) Ao se referir sobre a liberação das verbas, o ministro foi categórico: “As prefeituras só irão receber o recurso do Bolsa Escola se os alunos do ensino médio e fundamental forem recadastrados”.
(2) “As prefeituras só irão receber o recurso do Bolsa Escola se os alunos do ensino médio e fundamental forem recadastrados”, avisou o ministro.
b) discurso indireto- é a incorporação da fala de alguém ao discurso do narrador, que se utiliza de palavras e expressões como segundo, de acordo com ou para. Assim:
Segundo o ministro, a verba do Bolsa Escola só será repassada se as prefeituras recadastrarem os alunos do ensino médio e fundamental.
De acordo com o ministro, o repasse de verbas do Bolsa Escola depende do recadastramento dos alunos do ensino médio e fundamental a ser feito pelas prefeituras.
Para o ministro, é preciso que as prefeituras recadastrem os alunos do ensino médio e fundamental: só assim, os recursos do Bolsa Escola serão repassados.
c) discurso indireto livre- é quando a fala de alguém se confunde com o discurso do narrador.
Na polifonia, é importante prestar atenção aos diferentes NÍVEIS DE LINGUAGEM. Basicamente, eles se dividem em dois: linguagem formal e linguagem coloquial. Um texto pode comportar esses dois níveis de linguagem. É preferível usar a linguagem formal para o discurso do narrador e a coloquial para a transcrição da fala de alguém – desde que isso seja feito com bom senso, sem exageros e com correção ortográfica e gramatical.

Para entender estrelas e textos: narração, descrição e dissertação

Referências bibliográficas: ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Editora Ática, 2003. / GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo: Editora Scipione, 1999. / SOUZA, Luiz Marques de. & CARVALHO, Sérgio Waldeck. Compreensão e produção de textos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. / VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

Bem... Já está claro para nós que o que identifica a natureza de um texto é a sua intencionalidade. É a partir da refacção do percurso enunciação-texto que o leitor vai decodificar a intenção de quem o produziu, vai entender o que é relevante em termos ilocucionais. Grosso modo, podemos dizer que, para comunicar sua intenção, o emissor pode redigir em três formatos diferentes: narração, descrição ou dissertação. Ou seja: um texto pode apenas querer contar uma história real ou fictícia, descrever algo/alguém ou persuadir sobre algum assunto. Essa divisão, porém não é tão rígida: a partir das características de cada uma dessas formas, veremos como elas podem se misturar.

Narração
É a modalidade de redação na qual contamos um ou mais fatos que ocorreram em determinado tempo e lugar, envolvendo certos personagens. Em outras palavras: narrar é contar uma história real ou imaginária. O narrador pode se colocar na primeira pessoa (narrador-personagem) ou na terceira pessoa (narrador-observador).
Definido o tipo de narrador, é preciso conhecer e definir os elementos básicos presentes em qualquer narrativa. Invariavelmente, eles são sete:
1) fato- o que vai ser narrado;
2) tempo- quando este fato narrado ocorreu;
3) lugar- onde este fato se deu;
4) personagens – quem participou do ocorrido ou o observou;
5) causa- o motivo, o porquê do ocorrido;
6) modo- como se deu o fato;
7) conseqüências- os desdobramentos possíveis ou esperados a partir do que ocorreu.
A partir da definição desses elementos, podemos observar que a narrativa conta um fato se passou em um determinado tempo e em um determinado lugar. Como toda narrativa pressupõe uma ação, esta ação foi praticada e/ou sofrida por determinados personagens. Tudo o que essas pessoas fizeram ou sofreram teve uma causa, ou seja, envolveu determinadas circunstâncias. Por isso, é necessário explicar o modo como o fato ocorreu. E este fato, por sua vez, tem também conseqüências que devem ser observadas. Conhecidos esses elementos, basta organizá-los para elaborar a narração.
Mas... De forma podemos elaborá-la?!
Basicamente, podemos elaborar uma narração de duas maneiras: subjetivamente ou objetivamente. Na narrativa subjetiva os fatos são apresentados levando-se em conta as emoções, os sentimentos envolvidos na história. Nela, é possível perceber claramente a posição sensível e emocional do narrador ao relatar os acontecimentos. Em uma narração subjetiva, o fato não é narrado de modo frio e impessoal: ao contrário, ele é contado de forma que os efeitos psicológicos desencadeados nos personagens e as emoções do narrador estejam em evidência.
Com a narrativa objetiva ocorre exatamente o oposto. Nela, o narrador vai estar sempre fora da ação: ele é um observador que se limita a contar os fatos sem deixar que seus sentimentos e emoções transpareçam durante o que está sendo contado. É exatamente isso o que verificamos em matérias e reportagens de jornais e revistas, nas quais os jornalistas apenas informam os fatos, sem que seu discurso se envolva emocionalmente com o que estão noticiando. Este tipo de narrativa tem sempre um cunho impessoal e direto.

Descrição
A descrição é o tipo de redação através da qual se apontam as características que compõem um determinado objeto, pessoa, ambiente, paisagem ou cena. Para descrever um objeto, é preciso, antes, definir de que tipo ele é: constituído de uma única parte ou constituído por uma reunião de várias partes. Por exemplo: um objeto constituído por uma única parte pode ser um cinzeiro, um clipe de papel ou um pedaço de giz. Nesse caso, quem descreve deverá observar características como formato, dimensão, material, peso, cor e textura. Já um objeto constituído de várias partes pode ser uma caneta, um aparelho de TV ou uma cadeira. Aí, a descrição deverá levar em conta não só formato, dimensão, material, peso, cor e textura como também deverá enumerar suas partes e explicar o caráter geral referente à sua utilização.
Vamos, agora, à descrição de pessoas.
Descrever alguém não é tão simples quanto parece porque vários fatores devem ser levados em conta. Esses fatores se agrupam de duas formas: características físicas e características psicológicas. As características físicas se referem à aparência externa: altura, peso, cor de olhos e cabelos, idade, traços do rosto, voz e jeito de se vestir. Já as características psicológicas se associam ao comportamento de quem está sendo alvo da descrição: personalidade, temperamento, caráter, preferências e postura em relação a si.
O importante é perceber que uma boa descrição de alguém deve levar em conta a maioria de suas características físicas e psicológicas, além de (com bom senso) tentar associá-las. Assim, estaremos fazendo o leitor visualizar ou reconhecer o personagem da descrição. Quem está descrevendo pode ou não incluir-se no texto em alguns momentos: o fundamental é criar um impacto logo de início e manter a atenção do leitor.
Já a descrição de ambientes, paisagens e cenas deve observar outros fatores. Antes de tudo, vamos diferenciar os três: ambiente vai ser sempre um lugar fechado; paisagem vai ser sempre um lugar aberto; e cena vai ser uma ação única e contínua que se passa em determinado ambiente ou paisagem.
Para descrever um ambiente, é bom começar escolhendo uma referência no todo: uma casa, um museu, um bairro, um hospital, uma cidade. Localizado o ambiente a ser descrito, a descrição também deve abordar não só suas características físicas como também sua atmosfera, ressaltando a impressão que causa em quem dele se aproxime. Com a descrição de paisagens, é importante começar explicando o que se enxerga como pano de fundo: relevo, topografia, vegetação, etc. A partir disso, a descrição deve abordar a impressão que esta paisagem causa em quem a contempla, mencionando se ela reflete beleza ou causa uma sensação desagradável. E a cena, por sua vez, deverá levar em conta não só as características físicas do cenário como também sua atmosfera e seu pano de fundo, para que a ação única que ali se dá fique bastante explícita para o leitor.
Com isso, você já deve ter percebido que o objetivo de um texto descritivo é bem semelhante ao que visamos com uma fotografia, ou seja: é necessário que o leitor veja as imagens mentais que foram descritas pela linguagem. Paralelamente á definição do que estamos descrevendo, é necessário também observar que descrição compreende dois estilos:
1) descrição informativa- usa a linguagem referencial, dando lugar apenas aos aspectos denotativos das palavras, eliminando as ambigüidades e sendo concisa;
2) descrição pessoal- conjuga aspectos denotativos com os de natureza conotativa, utilizando as metáforas e as impressões próprias de quem descreve.
E já que estamos falando de subjetividade, vamos passar à dissertação.

Dissertação
A dissertação é o tipo de redação na qual expomos nossas idéias gerais e apresentamos os argumentos que as comprovam. Em outras palavras: dissertar é, antes de tudo, argumentar. Expondo idéias e pensamentos por meio de argumentos, podemos construir um discurso de defesa ou de crítica sobre um tema específico.
O texto dissertativo se caracteriza por obedecer a duas exigências básicas: a exposição e a argumentação simultâneas daquilo que quem escreve pensa a respeito de determinado assunto. Ou seja: o autor situa um tema e discute-o, lança sua tese e suas conclusões e procura sempre fazer o leitor concordar com o seu ponto de vista. É por isso que dizemos que a dissertação é um texto expositivo-argumentativo.
Toda dissertação pressupõe um plano de trabalho, um roteiro. Grosso modo, ele pode ser divido em:
a) introdução- que consiste na apresentação do tema abordado através da exposição de idéias, opiniões e argumentos gerais de quem escreve;
b) desenvolvimento- é a análise subjetiva dos aspectos favoráveis e desfavoráveis acerca do tema abordado e sua relação com as idéias, opiniões e argumentos (desdobrados e explicados) de quem escreve;
c) conclusão- reafirmação das idéias, opiniões e argumentos de quem escreve a partir do que foi elaborado do desenvolvimento.

Para entender estrelas e textos: linguagem e enunciação

Referências bibliográficas: ABREU, Antônio Suárez. Curso de redação. São Paulo: Editora Ática, 2003. / GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de redação. São Paulo: Editora Scipione, 1999. / SOUZA, Luiz Marques de. & CARVALHO, Sérgio Waldeck. Compreensão e produção de textos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. / VANOYE, Francis. Usos da linguagem – Problemas e técnicas na produção oral e escrita. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1986.

Depois da abordagem sobre as FUNÇÕES DA LINGUAGEM e sobre a importância do ATO ILOCUCIONAL ou ENUNCIAÇÃO, bem como das características da narração, da descrição e da dissertação, vamos entender como todo este blá-blá-blá se conjuga durante a redação. Essa conjugação pode se dar de várias formas. Aqui, três serão abordadas:
1) a mensagem puramente referencial e o texto informativo;
2) a função fática e a comunicabilidade do texto;
3) a expressão do juízo na resenha crítica.

Na mensagem puramente referencial, como o próprio nome já indica, os elementos referentes ou os dados objetivos são os que têm relevância: via de regra, eles serão os únicos a serem apresentados. O resultado disso será um texto impessoal e objetivo que tem o propósito exclusivo de informar o leitor. A princípio, esse tipo de texto não tem um receptor definido, mas deve ter o potencial de fazer com que qualquer tipo de leitor o decodifique. Em outras palavras: tem que ser abrangente.
Por outro lado, esta abrangência neutralizadora do perfil do leitor é resultado de um projeto discursivo: a objetividade não é obra do acaso e sim um árduo plano de trabalho. Textos informativos têm que dar ao leitor todas as indicações possíveis a respeito de referentes reais e concretos, colocando-o a par de fatos, acontecimentos e circunstâncias de forma clara e direta. Por isso, síntese e precisão são fundamentais. São elas que farão quem escreve ter a capacidade de depreender de um fato, acontecimento ou circunstância aquilo que é essencial e apresentar isso com clareza.
Aqui, entra em cena a narração. Através de seus elementos (fato, tempo, lugar, personagens, causa, modo e conseqüência) e lançando mão da polifonia e da descrição objetiva, ela deixará de lado determinadas figuras da retórica como a aliteração, a paranomásia, a perífrase e o eufemismo. Apesar disso e por conta da abrangência que este texto demanda, ele não pode ser excessivamente distante do leitor: tem que manter com ele um canal que permita a decodificação da mensagem do início ao fim.
É aí que chegamos à comunicabilidade que este texto deve ter. E esta é, como vimos, a característica essencial da função fática. Nesse caso, temos que nos orientar pela importância que este tipo de função dá ao canal estabelecido para a transmissão da mensagem. Como este canal, aqui, é o texto escrito, ele precisa ter legibilidade, deve permitir uma leitura fácil que conduza a uma grande e rápida compreensão da mensagem. Isto se adequa à idéia de refacção da qual já falamos quando abordamos a questão da coerência. Para ajudar nesta decodificação do discurso, é necessário usar os mecanismos de coesão textual por articulação semântica e os mecanismos de coesão textual por articulação sintática durante o processo de codificação, ou seja, no ato de escrever.
Por isso, ao redigir, é preciso prestar atenção não só ao problema da escolha das palavras como também ao problema das estruturas frasais. À escolha das palavras, daremos o nome de seleção léxica. De uma forma geral, podemos afirmar que as palavras mais rapidamente percebidas são:
1) as palavras curtas, uma vez que as palavras longas exigem um esforço maior de decodificação;
2) as palavras de forma simples porque a prefixação, a sufixação e a composição prejudicam a legibilidade;
3) as palavras de uso corrente, já que as raras e as complexas não têm tanta abrangência.

Na hora de definir as estruturas frasais, devemos levar em conta a capacidade do leitor mediano em perceber e memorizar um conjunto de palavras. De acordo com alguns estudos, essa capacidade varia entre 10 (dez) e 30 (trinta) palavras. É óbvio que isto não quer dizer que só podemos construir frases com um número de palavras exclusivamente nesta faixa. Mais importante é observar que:
a) a construção das frases deve deixar transparecer suas articulações;
b) a extensão das proposições não deve ultrapassar continuamente a capacidade de leitura acima referida;
c) as palavras gramaticalmente dependentes não devem estar muito distantes umas das outras;
d) as palavras mais importantes para a compreensão da mensagem devem estar, preferencialmente, na primeira metade da frase ou proposição;
e) a estrutura geral da frase seja simples de ser reconhecida, evitando uma sintaxe rebuscada e permitindo que o leitor pressuponha a categoria de palavras que se seguem antes de lê-las.
Muitos desses tópicos também valem quando redigimos textos subjetivos. Nesse caso, é preciso prestar atenção ao fato de a expressão de um juízo ou de uma opinião pessoal dever sempre estar apoiado em argumentos sólidos. O julgamento puramente subjetivo é “achismo”, ou seja, tem pouco valor. Alguns textos opinativos são meramente pessoais e exprimem apenas o sentimento de quem escreve. Já outros se relacionam com elementos objetivos e, por isso, ajudam o leitor a formar um espírito crítico próprio.

O texto noticioso

Refrências bibliográficas: ERBOLATO, Mário. Técnicas de codificação em jornalismo: redação, edição e captação em jornal diário. São Paulo: Editora Ática, 2001. LAGE, Nilson. Estrutura da notícia. São Paulo: Editora Ática, 2003. SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura – A comunicação e seus produtos. Petrópolis: Editora Vozes, 1996. MARCONDES FILHO, Ciro. O capital da notícia – Jornalismo como produção social da segunda natureza. São Paulo: Ática, 1986. BARBOSA, Gustavo & RABAÇA, Carlos Alberto. Dicionário de comunicação. Rio de Janeiro: Campus, 2001.

Para início de conversa, todo texto de matéria factual ou de reportagem especial é uma história que está sendo contada. Uma história verídica. Traduzindo: o texto da notícia é uma narrativa com função referencial; é o encadeamento de uma seqüência de elementos (fato, tempo, lugar, causa, modo, personagem, conseqüência) cujo objetivo é informar. Por isso, para começarmos a treinar a redação jornalística para veículos impressos, precisamos entender que, ao contarmos uma história, temos que prestar atenção para os DADOS FACTUAIS que correspondem aos ELEMENTOS da HISTÓRIA VERÍDICA que estamos contando. O texto que vai resultar disto é um texto que têm de ser fácil para o leitor. E fácil não significa “menor” nem “pobre”. Ao contrário: a técnica da simplicidade precisa de tempo para ser aperfeiçoada.
É aí que a gente precisa da ajuda dos acadêmicos.
Muniz Sodré nos diz que a notícia é um relato jornalístico de acontecimentos considerados relevantes para a compreensão do cotidiano; produz uma espécie de “história coletiva” contemporânea constituída por fatos jornalisticamente interpretados; é uma tecnologia não só cognitiva como também produtora do real. Para ele, o texto da notícia não tem nada de “novo”, uma vez que esta idéia está essencialmente ligada à RUPTURA. De fato, quando lemos uma notícia sobre um caso de corrupção envolvendo um político ou sobre o naufrágio de uma embarcação, estes fatos não trazem nenhum elemento de “ruptura” em relação às histórias (verídicas ou não) escandalosas ou trágicas com as quais temos contato. O que elas trazem, segundo Muniz Sodré, é ATUALIDADE. Ou seja: nosso interesse em ler estas notícias vem do fato de que elas se referem ao MAIS RECENTE escândalo de corrupção ou à MAIS RECENTE tragédia naval. É por isso que ele diz que a notícia tem “ponto rítmico”: suas histórias são como “eternos retornos” atualizados.
Mas essa história verídica chamada notícia não é só isso. Muniz Sodré também nos fala de duas tipologias bem interessantes em relação ao texto noticioso. Uma é a “matéria de criação”; uma espécie de texto positivo sobre um assunto pitoresco, curioso ou mesmo fora do comum. Algo próximo ao que as redações chamam de feature. De acordo com o Dicionário de comunicação, o feature pode ser definido como:
“Qualquer matéria sobre assuntos variados, cujo valor jornalístico não está necessariamente ligado ao dia de sua ocorrência. O feature, geralmente uma matéria de entretenimento, é menos perecível que a notícia comum. Pode ser guardado por vários dias, sem perder o interesse, para ser publicado de acordo com o espaço disponível e a programação do veículo.” (BARBOSA & RABAÇA: 2001, p.301-2)
A outra é o fait-divers, Partindo do ponto de vista de Barthes, Muniz Sodré nos indica que este tipo de notícia se refere a tudo que é anômalo, que foge à ordem estabelecida. De volta ao Dicionário de comunicação, encontramos a seguinte definição:
Notícia que desperta o interesse do leitor por implicar rompimento insólito ou extraordinário do curso cotidiano dos acontecimentos. (...) Roland Barthes transforma o termo em conceito semiológico, para dar conta das notações muito aberrantes do real. Deste modo, é fait-divers o acontecimento caracterizado pela perturbação de uma causa (p. ex.:, médico assassina moça com estetoscópio) ou pela anomalia do acaso (ganhou na loteria quarenta vezes). (BARBOSA & RABAÇA: 2001, p.296)
Ainda de acordo com Muniz Sodré, este tipo de história tem “um saber que basta”, é a notícia sob uma forma romanceada. Isso nos leva a concluir que, para se caracterizar como fait-divers, o relato noticioso precisa incorporar aspectos ligados aos gêneros do sensacional, que são aqueles que caracterizam a literatura fantástica, de horror, policial e melodramática. É por isso que alguns autores dizem que o fait-divers é típico dos jornais sensacionalistas.
Êpa! Mas TODOS OS JORNAIS são sensacionalistas!
Como assim?!
De acordo com Ciro Marcondes Filho, a notícia é um produto. Sendo assim, ela é composta de dois elementos: matéria-prima e apelo estético. A matéria-prima da notícia é a informação. E o apelo estético... É justamente a sensação agregada a esta informação. Por isso, todos os jornais são sensacionalistas: o que varia é o nível de sensação que eles impõem às informações para que elas se tornem notícias vendáveis, que interessem ao público leitor. Mas isso não significa que todas as notícias são fait-divers, porque o que o caracteriza é a anomalia do fato atrelada a elementos narrativos ligados aos gêneros do sensacional.

A pirâmide invertida e o lide

Se produzir o texto de uma notícia é contar uma história, então, é preciso estar atento aos elementos que constituem uma narrativa: fato, tempo, lugar, causa, modo, personagens, conseqüência. Eles estão presentes em QUALQUER história que a gente conte, seja ela real, fictícia, científica, religiosa etc. São estes elementos que, no jargão jornalístico, são denominados como o que, quando, onde, porque, como e quem.
A peculiaridade da NARRATIVA NOTICIOSA está no fato de que a história contada não se estrutura a partir da ordem cronológica dos acontecimentos. Ou seja: ao noticiarmos um acontecimento, não contamos esta história na ordem temporal clássica das ações que o compõem. É por isso que dizemos que a notícia é formatada pela PIRÂMIDE INVERTIDA.
Por que invertida?
Porque se a história noticiosa fosse formata pela pirâmide normal, o fato seria relatado em sua ordem cronológica.
Mas, “inverter a pirâmide” não significa narrar o acontecido de trás para frente. Longe disso.
“Inverter a pirâmide” significa começar a contar a história indo direto a que conseqüências algo levou. Para isso, precisamos agrupar as informações mais diretas e objetivas relativas aos elementos o que, quem, como quando, onde e porque. E isto deve ser feito logo no primeiro parágrafo do texto, que é chamado de LIDE.
Resumindo: a estrutura tradicional do texto noticioso é o da pirâmide invertida, composta pelo agrupamento hierárquico das informações referentes aos elementos básicos da narrativa, agrupamento este que é liderado pelo lide (o que, aliás, é um pleonasmo, porque “lide” é o aportuguesamento da palavra inglesa lead, que significa “liderar”).
Nilson Lage nos mostra que o lide é o relato do que há de essencial e importante no encadeamento de uma seqüência de fatos. Segundo ele, sua forma clássica se traduz em uma PROPOSIÇÃO COMPLETA, traduzida pela seguinte “arrumação”:
Proposição completa = sintagma nominal (sujeito) + sintagma verbal (predicado) + sintagma circunstancial (circunstâncias)
Só para esclarecer, um “sintagma” é a combinação de elementos para a formação de uma unidade léxica, locucional ou oracional. No caso do texto jornalístico noticioso, o sintagma nominal é o quem, o sintagma verbal é o que e os sintagmas circunstanciais são o como, o quando, o onde e o porque.
Além disso, Nilson Lage também chama nossa atenção para a documentação, que é o complemento do lide. Esta documentação é estruturada em um, dois ou mais parágrafos que detalham e acrescentam informações sobre o sintagma verbal (a ação verbal, o que aconteceu), os sintagmas nominais (com quem aconteceu a ação ou a quem a ação atingiu) e os sintagmas circunstanciais (como, quando, onde e porque aconteceu).
Mas “a coisa” não pára por aí. As configurações sintagmáticas darão origem a diferentes tipos de lide e, conseqüentemente, a diferentes tipos de notícias (ou de relatos jornalísticos). Luis Henrique, Marques, por exemplo, listou as diversas maneiras de composição do lide, compilando o que dizem os autores Mário Erbolato, Muniz Sodré, Maria Helena Ferrari e Alexandre Castro.
Para Mário Erbolato, a organização dos elementos narrativos pode originar os seguintes tipos de lide:
lide simples- refere-se apenas a um fato principal;
lide composto- abre a notícia anunciando vários fatos importantes;
lide integral- relaciona todas as informações objetivas sobre o fato;
lide suspense ou dramático- provoca emoção em quem lê;
lide relâmpago- anuncia o fato de forma extremamente resumida;
lide citação- anuncia o fato através do discurso direto;
lide contraste- relata um fato através de situações antagônicas;
lide documentário- historiciza o fato;
lide pessoal- anuncia o fato interpelando o leitor.

Além disso, Mário Erbolato também nos mostra que o lide pode PRIORIZAR um dos elementos da narrativa. Assim:

quem- prioriza o sujeito ativo e/ou o sujeito passivo da ação verbal;
o que- prioriza a ação verbal executada e/ou sofrida;
como- prioriza o modo, a forma pela qual a ação foi executada e/ou sofrida;
quando- prioriza a circunstância ou a contextualização temporal da ação;
onde- prioriza a circunstância espacial da ação;
porque- prioriza o motivo que desencadeou a ação executada e/ou sofrida.

Lembra daquele “papo” sobre a sensação? Pois é, como uma das funções do lide é a de “prender” o leitor para que ele leia a matéria inteira, é bom darmos uma espiada no que Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari dizem sobre ele. Para os autores, o lide pode “aguçar” o leitor ao realçar:
a visão- quando abre a matéria de forma fotográfica, cinematográfica ou descritiva;
a audição- quando abre a matéria com uma citação ou declaração real ou imaginária;
a imaginação- quando a abertura efetua uma comparação ou é imaginativa;
a pessoa- quando a abertura conta uma história pessoal ou coloca o leitor em cena;
as fórmulas- quando abre a matéria com frases feitas ou clichês;
as palavras- quando abre a matéria utilizando trocadilhos, paradoxos ou piadinhas.

Já Alexandre Castro lista algumas fórmulas para a abertura das matérias. São elas:
fórmula do “AO”- abre a matéria relacionando dois fatos, enfatizando o que for referido em segundo lugar;
fórmula do “ENQUANTO”- abre a matéria associando fatos contraditórios;
fórmula do “EMBORA/MESMO/APESAR DE”- abre a matéria associando fatos produzidos por fontes diferentes ou confrontando dados fornecidos por uma mesma fonte;
fórmula das “ASPAS”- abre a matéria destacando o caráter contundente, ridículo, pitoresco ou insólito de uma declaração;
fórmula do “COM”- abre a matéria destacando uma informação relativa ao objetivo ou à explicação de um fato;
fórmula do “POR”- semelhante à fórmula do “com”, abre a matéria citando uma informação que, apesar de aparentemente complementar, tornou-se importante pela própria dinâmica do acontecido;
fórmula do “GERÚNDIO” (é... ele não é tão demonizado assim...)- abre a matéria destacando uma informação através da subversão da ordem direta;
fórmula do “PARTICÍPIO”- abre a matéria também através da subversão da ordem direta, com a intenção de fazer uma afirmação indiscutível antes de citar o sujeito do fato e/ou sua ação.
Uau! Aposto que você não imaginava que o lide poderia ter tantas faces, não é mesmo?! E aposto também que você deve estar sentindo falta de EXEMPLOS.
Acertei?!
Mas eu não vou dá-los. Primeiro porque estes textos não são para FACILITAR a sua vida e sim para AJUDAR você a entender melhor as técnicas de redação do texto noticioso impresso.
Por isso, mãos à obra. Se você quiser conferir, na prática, estes tipos de lide, trate de “colar o nariz” no livro de um dos autores citados e, principalmente: LEIA JORNAIS.
Afinal, quem não lê também não escreve.

Técnicas redacionais em jornalismo impresso

A seleção, a organização e a valorização dos elementos do lide irão capitanear a narrativa jornalística. De acordo com Mário Erbolato, isto dará origem a dois tipos diferentes de notícia: a notícia ANALÍTICA e a notícia SINTÉTICA. A saber:

notícia analítica
contém todos os elementos da narrativa,
se configura através da fórmula NA = 3Q + O + P + C, sendo
Q = que, quem, quando; O = onde; P = porque; C = como;

notícia sintética- contém apenas os elementos básicos da narrativa,
se configura através da fórmula NS = 3Q, sendo
Q = que, quem, quando.

Seja lá qual for o tipo de notícia que você estiver escrevendo, o importante é ter em mente que a produção do texto jornalístico impresso requer uma técnica. É, redigir é uma técnica que implica o domínio de capacidades lingüísticas e um processo intelectual que envolve a formulação de pensamentos (o que se quer dizer) e sua expressão por escrito (a composição do texto).
Por isso, a redação tem etapas. Vejamos:

1. definir o tema do discurso- sobre o quê você vai escrever? É preciso estar ciente do assunto que será noticiado;
2. relacionar os elementos da narrativa- sabendo sobre o que vai escrever, você deve selecionar as informações apuradas que correspondem aos elementos o que, quem como, quando, onde e porque;
3. selecionar os dados/argumentos- nem tudo o que é apurado será utilizado no texto que você irá produzir, o que leva à necessidade de priorizar alguns deles e descartar outros;
4. seqüenciar as ações e encadear os acontecimentos- sabendo sobre o que irá escrever e de posse dos elementos narrativos necessários para isto, uma boa dica é RECONSTITUIR o acontecido;
5. formatar os tópicos do tema do discurso na pirâmide invertida- como o texto jornalístico impresso não se formata pela ordem cronológica das ações que compõem o fato, precisamos agrupar, em ordem decrescente, as informações mais diretas e objetivas relativas aos elementos o que, quem, como quando, onde e porque;
6. organizar as idéias em frases e as frases em parágrafos- o agrupamento decrescente das informações deverá compor o lide, a documentação, o corpo do texto e o pé da matéria;
7. conferir a coesão do texto composto- as palavras utilizadas e as sentenças formuladas no texto devem ter um ENCADEAMENTO SEMÂNTICO, ou seja, devem ter uma seqüência lógica que permita a formulação de um sentido;
8. verificar a coerência do material explanado- leia o texto que você escreveu como se você não soubesse de que assunto ele trata: se a mensagem que você quis passar foi capaz de ser compreendida, então, este texto tem coerência (se for possível, faça melhor ainda: peça para que OUTRA pessoa leia o seu texto);
9. adequar lexicalmente o texto à narrativa jornalística impressa- verifique se você utilizou palavras muito rebuscadas ou de difícil entendimento e lembre-se da máxima jornalística que diz que “entre duas palavras ou expressões, escolha a mais simples; entre duas palavras ou expressões simples, escolha a mais curta”;
10. corrigir ortográfica e gramaticalmente o texto produzido- é com “s”, com “x”, com “ch” ou com crase? Tem vírgula ou não? Na dúvida corra até o dicionário ou até a gramática porque, de acordo com o código de ética dos jornalistas, nós devemos “zelar pela língua pátria”.

Para que você compreenda melhor este passo a passo, vamos tomar como exemplo a seguinte apuração:

# dia 23 de outubro, todo mundo com mais de 18 vai ser obrigado a votar no referendo pra saber se a população quer ou não quer que o comércio de arma de fogo e de munição pra arma de fogo continue permitido ou não permitido # todo mundo c/ mais de 18 vai ter que dizer que sim ou que não pra pergunta se “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?” # esse negócio desse referendo ta sendo feito por causa do Estatuto do Desarmamento que foi aprovado em 2003 mas que exigia uma consulta pública para saber se as pessoas do país concordavam com o final da venda de armas e munições pra armas # todo mundo é obrigado a votar no referendo (é obrigatório) e quem não puder votar vai ter que justificar pra Justiça Eleitoral porque foi que não votou # 122.042.825 de brasileiros podem votar em tudo o que é votação do Brasil (alguns desses vão ter que votar, quer dizer, são obrigados) # a Justiça falou que tem 4.604.292 jovens de 16 e 17 que se quiserem vão poder votar em outubro (eles são 3,7% das pessoas esperadas pra votar) # esse referendo vai ser a maior de todas as consultas populares informatizadas do mundo todo # o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) falou que os milhões de eleitores são de 5.564 municípios do país e que 59.921 eleitores são os brasileiros que tão no exterior e tão cadastrados para votar nas eleições presidenciais nos consulados e embaixadas brasileiras, mas que não vão votar no referendo # o estado de São Paulo, com 27.303.895 eleitores, é o maior colégio eleitoral do Brasil, e depois vem Minas Gerais (13.320.622), Rio de Janeiro (10.645.180), Bahia (8.952.123) e Rio Grande do Sul (7.593.507) # a maior cidade de eleitores é São Paulo porque tem 7.811.213 eleitores e a menor também é lá no estado: o município paulista, Bora, com só 828 eleitores# referendo é o direito que o cidadão tem de ser consultado diretamente sobre um assunto de interesse geral mesmo tendo os deputados e os senadores pra votarem nas leis # o Instituto Ipsos (São Paulo) divulgou hoje uma pesquisa feita com mil brasileiros sobre a proibição da venda de armas e munição no Brasil: 76% dos brasileiros são contrários à venda; 21% dos mil brasileiros ouvidos não concordam com a proibição; 3% não opinaram sobre o assunto ou não souberam responder #

Agora, vamos aplicar cada uma das etapas descritas anteriormente:
1.tema do discurso: maior consulta popular informatizada do mundo levará cerca de 120 milhões de brasileiros às urnas;
2.elementos da narrativa: o quê- cerca de 120 milhões de eleitores brasileiros participarão da maior consulta popular informatizada do mundo /// quem- brasileiros com mais de 18 anos e mais de 4 milhões de jovens brasileiros com 16 e 17 anos /// como- através do referendo sobre a proibição da venda de armas de fogo e munição no país /// quando- dia 23 de outubro de 2005 /// onde- nos 5.564 municípios do Brasil /// por que- o Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003, exige uma consulta pública sobre a proibição da venda de armas e munições;
3.seleção de dados: # dia 23 de outubro, todo mundo com mais de 18 vai ser obrigado a votar no referendo pra saber se a população quer ou não quer que o comércio de arma de fogo e de munição pra arma de fogo continue permitido ou não permitido (a participação no referendo é obrigatória para brasileiros com mais de 18 anos) # todo mundo c/ mais de 18 vai ter que dizer que sim ou que não pra pergunta se “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?” (os eleitores terão que escolher entre as opções “sim” ou “não” para a pergunta “O comércio de armas de fogo e munições deve ser proibido no Brasil?”) # esse negócio desse referendo ta sendo feito por causa do Estatuto do Desarmamento que foi aprovado em 2003 mas que exigia uma consulta pública para saber se as pessoas do país concordavam com o final da venda de armas e munições pra armas (o referendo é uma exigência do Estatuto do Desarmamento aprovado em 2003) # todo mundo é obrigado a votar no referendo (é obrigatório) e quem não puder votar vai ter que justificar pra Justiça Eleitoral porque foi que não votou (os eleitores que não participarem do referendo terão que justificar a ausência para a Justiça Eleitoral) # 122.042.825 de brasileiros podem votar em tudo o que é votação do Brasil (alguns desses vão ter que votar, quer dizer, são obrigados) (122.042.825 brasileiros estão aptos a votar) # a Justiça falou que tem 4.604.292 jovens de 16 e 17 que se quiserem vão poder votar em outubro (eles são 3,7% das pessoas esperadas pra votar) (3,7% dos eleitores aptos a votar – cerca de 4 milhões de eleitores – são jovens de 16 e 17 anos) # esse referendo vai ser a maior de todas as consultas populares informatizadas do mundo todo (o referendo sobre o desarmamento é a maior consulta pública informatizada do mundo) # o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) falou que os milhões de eleitores são de 5.564 municípios do país e que 59.921 eleitores são os brasileiros que tão no exterior e tão cadastrados para votar nas eleições presidenciais nos consulados e embaixadas brasileiras, mas que não vão votar no referendo (segundo o TSE, o referendo será realizado em 5.564 municípios – ainda de acordo com o TSE, os 59.921 eleitores brasileiros residentes no exterior não participarão do referendo) # o estado de São Paulo, com 27.303.895 eleitores, é o maior colégio eleitoral do Brasil, e depois vem Minas Gerais (13.320.622), Rio de Janeiro (10.645.180), Bahia (8.952.123) e Rio Grande do Sul (7.593.507) (os cinco maiores colégios eleitorais do país são São Paulo (27.303.895 eleitores), Minas Gerais (13.320.622 eleitores), Rio de Janeiro (10.645.180 eleitores) Bahia (8.952.123 eleitores) e Rio Grande do Sul (7.593.507 eleitores)) # a maior cidade de eleitores é São Paulo porque tem 7.811.213 eleitores e a menor também é lá no estado: o município paulista, Bora, com só 828 eleitores (os municípios com o maior e o menor número de eleitores ficam no estado de São Paulo: a capital (com 7.811.213 eleitores) e a cidade de Bora (828 eleitores), respectivamente) # referendo é o direito que o cidadão tem de ser consultado diretamente sobre um assunto de interesse geral mesmo tendo os deputados e os senadores pra votarem nas leis # o Instituto Ipsos (São Paulo) divulgou hoje uma pesquisa feita com mil brasileiros sobre a proibição da venda de armas e munição no Brasil: 76% dos brasileiros são contrários à venda; 21% dos mil brasileiros ouvidos não concordam com a proibição; 3% não opinaram sobre o assunto ou não souberam responder #
o que- o referendo sobre o desarmamento é a maior consulta pública informatizada do mundo; referendo é o direito que o cidadão tem de ser consultado diretamente sobre um assunto de interesse geral
quem- a participação no referendo é obrigatória para brasileiros com mais de 18 anos; os eleitores que não participarem do referendo terão que justificar a ausência para a Justiça Eleitoral; 122.042.825 brasileiros estão aptos a votar; 3,7% dos eleitores aptos a votar – cerca de 4 milhões de eleitores – são jovens de 16 e 17 anos; de acordo com o TSE, os 59.921 eleitores brasileiros residentes no exterior não participarão do referendo; o Instituto Ipsos (São Paulo) divulgou hoje uma pesquisa feita com mil brasileiros sobre a proibição da venda de armas e munição no Brasil: 76% dos brasileiros são contrários à venda; 21% dos mil brasileiros ouvidos não concordam com a proibição; 3% não opinaram sobre o assunto ou não souberam responder
como- os eleitores terão que escolher entre as opções “sim” ou “não” para a pergunta “O comércio de armas de fogo e munições deve ser proibido no Brasil?”
quando- 23 de outubro
onde- segundo o TSE, o referendo será realizado em 5.564 municípios; os municípios com o maior e o menor número de eleitores ficam no estado de São Paulo: a capital (com 7.811.213 eleitores) e a cidade de Bora (828 eleitores), respectivamente; os cinco maiores colégios eleitorais do país são São Paulo (27.303.895 eleitores), Minas Gerais (13.320.622 eleitores), Rio de Janeiro (10.645.180 eleitores) Bahia (8.952.123 eleitores) e Rio Grande do Sul (7.593.507 eleitores)
por que- o referendo é uma exigência do Estatuto do Desarmamento aprovado em 2003
4 a 10.encadeamento dos acontecimentos; formatação dos tópicos do tema do discurso na pirâmide invertida; organização das idéias em frases e as frases em parágrafos; verificação da coerência e da coesão do texto; adequação lexical do texto à narrativa jornalística impressa; correção ortográfica e gramatical do texto produzido:
Mais de 122 milhões de eleitores brasileiros participarão da maior consulta popular informatizada do mundo: o referendo sobre a proibição da venda de armas de fogo e munição no país. Eles deverão responder “sim” ou “não” à pergunta “O comércio de armas de fogo e munições deve ser proibido no Brasil?”, dia 23 de outubro. O referendo é uma exigência do Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003, e permite que o cidadão se manifeste diretamente sobre a aprovação de uma lei. Todos os brasileiros com mais de 18 anos são obrigados a votar: os que não comparecerem às urnas terão que justificar a ausência junto à Justiça Eleitoral.
Entre os eleitores, cerca de 4 milhões são jovens de 16 e 17 anos, para os quais o voto é facultativo. Os eleitores residentes no exterior (59.921 brasileiros) não participarão do referendo. No total, 5.564 municípios participarão da consulta. As cidades com o maior e o menor número de eleitores estão no estado de São Paulo: a capital, com 7.811.213 eleitores, e a cidade de Bora, com 828 eleitores. Os cinco maiores colégios eleitorais do país estão em São Paulo (27.303.895 eleitores), Minas Gerais (13.320.622 eleitores), Rio de Janeiro (10.645.180 eleitores) Bahia (8.952.123 eleitores) e Rio Grande do Sul (7.593.507 eleitores).
O Instituto Ipsos, de São Paulo, divulgou ontem uma pesquisa feita com mil brasileiros sobre a proibição da venda de armas e munição no Brasil: 76% dos brasileiros são contrários à venda; 21% dos mil brasileiros ouvidos não concordam com a proibição; 3% não opinaram sobre o assunto ou não souberam responder
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O mais interessante é que este texto acima é apenas o texto que EU produzi. Se pedirmos a mesma tarefa para cem outros jornalistas, eu garanto: apesar de poucas variações, teremos nada menos que CEM TEXTOS DIFERENTES.

Tipologia e formatação do texto jornalístico impresso

Quase todo mundo tem uma tia “figuraça”. Eu tenho várias (e sou uma delas para sete “anjnhos”). Uma dessas minhas tias - leitora ávida de jornais e revistas, telespectadora assídua de novelas e, conseqüentemente, meu primeiro estudo de caso - volta e meia se indignava com algo que considerava inverossímel no telejornal nacional das oito. Sempre que isto acontecia, ela me pedia: “Filha, escreve um artigo aí no teu jornal falando desse absurdo! Onde já se viu uma coisa dessas? Escreve um artigo aí, filha, mas escreve logo para amanhã porque hoje mesmo aconteceu justamente o contrário comigo e com o pessoal aqui da rua!”.
O que a minha tia e a tia de muita gente queria dizer com a palavra “artigo”, na verdade, significava MATÉRIA FACTUAL. Pois é, o jornalismo tem essas coisas. Nem todo muito sabe fazer uma cirurgia de coração ou sabe construir uma ponte ou sabe redigir uma petição; nem todo mundo tem um estetoscópio ou uma betoneira ou uma carteira da OAB em casa. Mas a maioria das pessoas sabe produzir informação, sabe escrever e consegue formar uma opinião crítica sobre determinado assunto e quase todo mundo tem um jornal ou uma revista em casa. Ou seja: tanto a matéria prima quanto o produto do trabalho dos jornalistas estão ao alcance de todos (e eu acho que é por isso que alguns equivocados afirmam categoricamente que o jornalista não precisa cursar uma faculdade de JORNALISMO...). Essa proximidade provoca confusão – não só na cabeça da minha tia como também na cabeça de quem estuda jornalismo. Como podemos considerar como NOTÍCIA a esmagadora maioria do conteúdo que é veiculado em uma mídia jornalística, a diferenciação entre os estilos de texto e a formatação da informação fica nebulosa.
Vamos começar pela minha tia.
De cara, a diferença entre “artigo” e matéria factual” está no fato de que o primeiro é essencialmente dissertativo, ao passo que a segunda é uma narrativa de cunho eminentemente referencial. “Artigo” é frio e prima pela permanência, “matéria factual” é quente e prima pelo imediatismo.
Além disso, alguns autores dividem os textos jornalísticos em OPINATIVOS e INFORMATIVOS, mas eu discordo desta categorização. E concordo com o autor Manoel Carlos Chaparro quando ele afirma que esta divisão é impossível. O argumento é simples: para emitir uma OPINIÃO, o sujeito precisa utilizar uma grande carga de INFORMAÇÃO para embasar seus argumentos; ao eleger um dado ou fato como INFORMAÇÃO (em detrimento de outros dados ou fatos), o sujeito parte de um ponto de vista, ou seja, de uma OPINIÃO. Isto equivale a dizer que opinião e informação são inseparáveis. Por isso, prefiro classificar os textos jornalísticos como INTERPRETATIVOS ou TRADUTORES dos fatos.
Apesar de o significado das duas palavras se aproximarem, a interpretação remete a um ajuizamento, a um julgamento, ao passo que a tradução remete a uma transposição, a um traslado. Quando interpretamos, deixamos claro que a intenção de nosso discurso é a de defendermos o nosso ponto de vista sobre o objeto. Quando traduzimos, o sentido do nosso discurso está, necessariamente, “preso” a um “original”. Ainda que superficial (preciso estudar isto um pouco mais), esta diferenciação tem ajudado um bocado os meus alunos. De acordo com ela:
a. os textos jornalísticos de INTERPRETAÇÃO são aqueles nos quais o ponto de vista do enunciador é o tópico do discurso, como verificamos no artigo, na crítica, na crônica, no editorial, no comentário;
b. e os textos jornalísticos de TRADUÇÃO são aqueles nos quais o acontecimento vivenciado/testemunhado é transposto para a narrativa/descrição referencial, como verificamos na matéria factual, na reportagem especial, na nota.
Para não esquecermos o que diz Manoel Carlos Chaparro, é bom ficar claro que os textos jornalísticos de interpretação valem pelo embasamento referencial (as informações concretas) de seus argumentos; e os textos jornalísticos de tradução só vão transpor para a narrativa noticiosa aquilo que a linha editorial (opinião) do veículo considera relevante para o social.
Agora, vamos às definições de cada um desses textos:
· artigo- aborda especificidades relacionadas ao contexto de determinados fatos noticiosos defendendo um ponto de vista através da argumentação;
· crítica- analisa jornalisticamente eventos e produtos culturais defendendo um ponto de vista através da argumentação;
· crônica- texto livre, literário, sobre assuntos contemporâneos;
· editorial- justifica as narrativas noticiosas de um determinado veículo defendendo um ponto de vista através da argumentação;
· comentário- contextualiza uma determinada narrativa noticiosa, explicando-a através de uma breve argumentação;
· matéria factual- narra acontecimentos da realidade imediata com objetividade, descrevendo seres, objetos e lugares;
· reportagem especial- narra acontecimentos atuais, contextualizando-os em uma realidade mais ampla que a imediata, descrevendo seres, objetos e lugares;
· nota- informação rápida estruturada em um texto pequeno e conciso.

Estes diferentes tipos de texto são “arrumados” de várias formas nos veículos impressos. Em uma revista, por exemplo, a tendência é que eles se apresentem em seções, geralmente nomeadas: “Palavra do editor” para os editoriais; “Opinião”, para os artigos; “Radar” para as notas; “Ponto de vista” para as críticas; “Especial” para as grandes reportagens; “Atualidade” para as matérias factuais. Nos jornais diários, as notas costumam compor as colunas e a(s) página(s) de opinião são preenchidas pelo editorial, pelos artigos, pelas cartas dos leitores, pelas crônicas.
Além disso, a incrível quantidade de dados e de abordagens sobre um determinado assunto faz com que o texto jornalístico impresso necessite de uma edição que os selecione e os destaque. A cobertura factual de um assassinato, por exemplo, pode render uma apuração muito rica em dados, detalhes e pontos de vista, que precisarão ser “arrumados” na página do jornal. Assim, o leitor poderá identificar o texto que se refere a o que efetivamente aconteceu, o texto que explora a biografia da vítima, o texto que relaciona os últimos casos de assassinato naquela localidade, o texto editorializado ou o gráfico sobre o aumento do crime contra a vida nos últimos dez anos.
Esta “arrumação” de dados e abordagens pode ser categorizada da seguinte forma:
1. texto principal- além de conter as principais informações objetivas sobre o fato e seus personagens, dá a visão geral sobre o que está sendo abordado, incluindo o máximo de informações e declarações possíveis e/ou cabíveis no espaço delimitado pela diagramação; no exemplo do assassinato, seria a narração sobre o que efetivamente aconteceu;
2. texto coordenado (ou retrancado)- desenvolve algum aspecto do fato ou dos personagens que compõem o texto principal, ampliando o entendimento do leitor ou complementando a narrativa principal; no exemplo do assassinato, poderia ser o texto que explora a biografia da vítima e/ou o texto que relaciona os últimos casos de assassinato naquela localidade,
3. box- texto colocado entre fios, isolado graficamente do corpo da cobertura, que destaca algum aspecto, personagem(ns) ou comentário referente ao texto principal ou ao(s) texto(s) coordenado(s), podendo conter um aspecto pitoresco da notícia, um conjunto de declarações sobre o fato abordado, uma entrevista com um dos personagens, um histórico ou a opinião do jornal sobre o assunto; no exemplo do assassinato, poderia ser o texto editorializado sobre o aumento da violência;
4. infografia- gráfico, geralmente acompanhado por uma arte visual, que esquematiza, de forma rápida e simplificada, dados estatísticos, comparações, mapas etc; no exemplo do assassinato, poderia ser utilizado para mostrar o aumento do número de assassinatos, ano a ano, nos últimos dez anos.

Os exemplos desta “arrumação” são vários. Quando um compositor famoso lança um CD novo, o jornal pode fazer um texto principal com uma grande entrevista (abordaremos as entrevistas em um outro texto) sobre o processo criativo daquele trabalho; um texto coordenado sobre a mega produção que envolve o show de lançamento do disco; outro com uma crítica assinada sobre as músicas do CD; e ainda pode publicar um box com o título das faixas e suas respectivas fichas técnicas.
Como sempre acontece em jornalismo, não há regras fixas: tudo vai depender do assunto abordado, do repórter escalado, da apuração realizada, do espaço destinado e, é claro, do imprevisível.
Porque, de um minuto para outro, a dinâmica do mundo pode fazer TODOS os seus textos caírem...

A redação das informações em destaque nos veículos impressos

Produzir um texto é fazer nascer uma trama. Tal e qual os bebês, é preciso que o texto jornalístico tenha nascido para que a gente possa “nomeá-lo”. Até dá para arriscar este ou aquele título enquanto o texto está sendo “gerado”. Mas é só depois que ele está pronto e editado que o título se torna definitivo – mais ou menos como acontece quando um bebê que se chamaria Bernardo nasce com cara de Rafael. O mesmo acontece com as fotografias, com o destaque da capa do jornal e com aqueles trechos que queremos salientar.
Titular é chamar a atenção do leitor através do destaque dado à informação principal do texto jornalístico. Mas este tipo de destaque não anda sozinho. Ele vem acompanhado de subtítulo, entretítulo, olho, manchete, selo e “sutiã”. O mesmo acontece com as fotografias: elas precisam estar prontas e editadas para que a gente possa redigir a legenda ou o texto-legenda. E, ao lado disso tudo, ainda há as eventuais chamadas de capa.
Cada um destes destaques é elaborado a partir de regrinhas específicas.
Vamos a elas.
O título deve ser curto, objetivo, atraente, claro, direto, preciso e (ufa!) criativo para “convencer” o leitor de que vale a pena perder tempo com aquele texto que foi publicado. Ele é o “anúncio” da notícia, mas NUNCA deve prometer mais que o texto oferece nem afirmar algo que não existe nele. Quem faz um título também deve evitar paradoxos. Dia desses, um jornal importantíssimo do Rio de Janeiro publicou uma reportagem sobre uma pesquisa realizada com mulheres que praticaram aborto e o título era o seguinte: “Mais de 70% das mulheres que praticaram aborto têm filhos”. O leitor que entendeu, achou esquisito; e o leitor que não entendeu foi ler o texto crente que 70% dos abortos não interromperam as gestações! Muito importante também é não redigir um título que contenha palavras repetidas ou que repita palavras que estejam em destaque na mesma página ou na página ao lado. No que se refere às matérias factuais, os títulos devem conter verbos no presente e não devem ser interrogativos, enquanto os títulos de reportagens especiais, críticas, crônicas, artigos, notas e editoriais permitem maior liberdade em sua redação. Um título é sempre redigido em número de toques, ou seja: cada vez que você aperta uma tecla (com exceção dos acentos e do shift) você está contabilizando um toque para o seu título. Os toques também valem para os espaços entre as palavras, as vírgulas e os dois pontos. Num título, esqueça o ponto final: se a informação acaba nele, por que existe um texto jornalístico logo depois?
Abaixo do título vem o subtítulo, que também é conhecido por “linha fina”. Como é opcional (ao contrário do título, que é obrigatório), o subtítulo só deve ser utilizado quando complementar o título. Ao redigi-lo, devemos tomar cuidado para não repetir a informação que está no título nem transcrever alguma frase ou oração do lide. A regrinha para palavras repetidas também vale para os subtítulos, mas eles podem conter ponto final, desde que seguido por outra frase. O ponto final vale no meio do subtítulo mas nunca no fim dele. Ou seja: as regras de redação do subtítulo são muito semelhantes às do título.
O seu leitor foi atraído pelo título, percebeu que a complementação do subtítulo mostra que vale a pena perder um tempinho lendo aquilo mas... O texto está muito grande ou visualmente pesado. Para que ele não tenha preguiça de ler o que levamos tanto tempo para produzir, os diagramadores vêm em nosso socorro: para suavizar as longas ou pesadas colunas de texto, eles inserem entretítulos ou olhos na página. O entretítulo é utilizado, geralmente, a cada três parágrafos de textos muito longos. Além de destacar informações que ainda serão lidas, eles dão equilíbrio à página impressa e facilitam a leitura. O olho (ou “janela”) tem a mesma função e uma diferença: ele, necessariamente, transcreve um trecho ou declaração do texto jornalístico no qual está inserido.
Em relação às fotos pertinentes ao seu texto, é preciso ter muito cuidado ao redigir a legenda porque, mal feita, ela pode destruir o trabalho bacana do seu colega fotógrafo. A primeira regra para a redação da legenda é a de só redigi-la depois que a foto tiver sido editada: caso contrário, você corre o risco de dar uma informação sobre algum elemento que ficou de fora depois que o editor cortou a foto. A legenda é um texto curto, também redigido em toques e cujo número de linhas dependerá da diagramação – que pode colocá-la em apenas uma linha horizontal, abaixo da base da foto ou pode colocá-la em várias linhas curtas ao lado ou mesmo dentro da foto. É uma das primeiras coisas lidas pelo leitor. Por isso, sua função é a de esclarecer eventuais dúvidas que a foto possa suscitar. Como deve enriquecer a informação que está representada na fotografia, a legenda nunca pode descrevê-la, apesar de ter que identificar os personagens e indicar sua posição no quadro. Quando a legenda se referir a fotos de ação, deve conter verbos no presente, para não minimizar seu impacto. Já o texto-legenda é uma forma ampliada da legenda. Redigido em, mais ou menos, dez linhas, deve ter dados suficientes para compor, com a foto, uma informação que dispense o texto jornalístico no formato da pirâmide invertida.
Depois de redigir tudo isso, o editor chega à conclusão de que a sua cobertura ficou muito legal. Digna de uma chamada de capa. Então, apesar do cansaço, trate de NÃO repetir o lide ou o olho ou o primeiro parágrafo do seu texto jornalístico porque isto é preguiça. Redija um texto curto que resuma as informações publicadas na cobertura que está no interior do jornal. Alguns jornais diários e a maioria das revistas costumam estruturar a chamada de capa como um “titulão” de duas ou três linhas. Seja lá qual for a estrutura, o importante é que a chamada de capa deve ser chamativa e sedutora, contendo, basicamente, o porquê daquela informação ter sido publicada com destaque. Afinal, ela está na “embalagem” do veículo impresso que irá para a banca.
Suponhamos, agora, que o editor não achou a sua cobertura bacana: ele achou que você é digno de um Prêmio Esso. Aí, ficou fácil. Dê uma espreguiçada, ofereça um café para o diretor de redação e observe como ele irá anunciar o resultado do seu árduo trabalho jornalístico como o principal destaque da parte superior da capa do jornal ou em letras garrafais: o seu texto virou manchete!