quarta-feira, 7 de maio de 2008

A redação das informações em destaque nos veículos impressos

Produzir um texto é fazer nascer uma trama. Tal e qual os bebês, é preciso que o texto jornalístico tenha nascido para que a gente possa “nomeá-lo”. Até dá para arriscar este ou aquele título enquanto o texto está sendo “gerado”. Mas é só depois que ele está pronto e editado que o título se torna definitivo – mais ou menos como acontece quando um bebê que se chamaria Bernardo nasce com cara de Rafael. O mesmo acontece com as fotografias, com o destaque da capa do jornal e com aqueles trechos que queremos salientar.
Titular é chamar a atenção do leitor através do destaque dado à informação principal do texto jornalístico. Mas este tipo de destaque não anda sozinho. Ele vem acompanhado de subtítulo, entretítulo, olho, manchete, selo e “sutiã”. O mesmo acontece com as fotografias: elas precisam estar prontas e editadas para que a gente possa redigir a legenda ou o texto-legenda. E, ao lado disso tudo, ainda há as eventuais chamadas de capa.
Cada um destes destaques é elaborado a partir de regrinhas específicas.
Vamos a elas.
O título deve ser curto, objetivo, atraente, claro, direto, preciso e (ufa!) criativo para “convencer” o leitor de que vale a pena perder tempo com aquele texto que foi publicado. Ele é o “anúncio” da notícia, mas NUNCA deve prometer mais que o texto oferece nem afirmar algo que não existe nele. Quem faz um título também deve evitar paradoxos. Dia desses, um jornal importantíssimo do Rio de Janeiro publicou uma reportagem sobre uma pesquisa realizada com mulheres que praticaram aborto e o título era o seguinte: “Mais de 70% das mulheres que praticaram aborto têm filhos”. O leitor que entendeu, achou esquisito; e o leitor que não entendeu foi ler o texto crente que 70% dos abortos não interromperam as gestações! Muito importante também é não redigir um título que contenha palavras repetidas ou que repita palavras que estejam em destaque na mesma página ou na página ao lado. No que se refere às matérias factuais, os títulos devem conter verbos no presente e não devem ser interrogativos, enquanto os títulos de reportagens especiais, críticas, crônicas, artigos, notas e editoriais permitem maior liberdade em sua redação. Um título é sempre redigido em número de toques, ou seja: cada vez que você aperta uma tecla (com exceção dos acentos e do shift) você está contabilizando um toque para o seu título. Os toques também valem para os espaços entre as palavras, as vírgulas e os dois pontos. Num título, esqueça o ponto final: se a informação acaba nele, por que existe um texto jornalístico logo depois?
Abaixo do título vem o subtítulo, que também é conhecido por “linha fina”. Como é opcional (ao contrário do título, que é obrigatório), o subtítulo só deve ser utilizado quando complementar o título. Ao redigi-lo, devemos tomar cuidado para não repetir a informação que está no título nem transcrever alguma frase ou oração do lide. A regrinha para palavras repetidas também vale para os subtítulos, mas eles podem conter ponto final, desde que seguido por outra frase. O ponto final vale no meio do subtítulo mas nunca no fim dele. Ou seja: as regras de redação do subtítulo são muito semelhantes às do título.
O seu leitor foi atraído pelo título, percebeu que a complementação do subtítulo mostra que vale a pena perder um tempinho lendo aquilo mas... O texto está muito grande ou visualmente pesado. Para que ele não tenha preguiça de ler o que levamos tanto tempo para produzir, os diagramadores vêm em nosso socorro: para suavizar as longas ou pesadas colunas de texto, eles inserem entretítulos ou olhos na página. O entretítulo é utilizado, geralmente, a cada três parágrafos de textos muito longos. Além de destacar informações que ainda serão lidas, eles dão equilíbrio à página impressa e facilitam a leitura. O olho (ou “janela”) tem a mesma função e uma diferença: ele, necessariamente, transcreve um trecho ou declaração do texto jornalístico no qual está inserido.
Em relação às fotos pertinentes ao seu texto, é preciso ter muito cuidado ao redigir a legenda porque, mal feita, ela pode destruir o trabalho bacana do seu colega fotógrafo. A primeira regra para a redação da legenda é a de só redigi-la depois que a foto tiver sido editada: caso contrário, você corre o risco de dar uma informação sobre algum elemento que ficou de fora depois que o editor cortou a foto. A legenda é um texto curto, também redigido em toques e cujo número de linhas dependerá da diagramação – que pode colocá-la em apenas uma linha horizontal, abaixo da base da foto ou pode colocá-la em várias linhas curtas ao lado ou mesmo dentro da foto. É uma das primeiras coisas lidas pelo leitor. Por isso, sua função é a de esclarecer eventuais dúvidas que a foto possa suscitar. Como deve enriquecer a informação que está representada na fotografia, a legenda nunca pode descrevê-la, apesar de ter que identificar os personagens e indicar sua posição no quadro. Quando a legenda se referir a fotos de ação, deve conter verbos no presente, para não minimizar seu impacto. Já o texto-legenda é uma forma ampliada da legenda. Redigido em, mais ou menos, dez linhas, deve ter dados suficientes para compor, com a foto, uma informação que dispense o texto jornalístico no formato da pirâmide invertida.
Depois de redigir tudo isso, o editor chega à conclusão de que a sua cobertura ficou muito legal. Digna de uma chamada de capa. Então, apesar do cansaço, trate de NÃO repetir o lide ou o olho ou o primeiro parágrafo do seu texto jornalístico porque isto é preguiça. Redija um texto curto que resuma as informações publicadas na cobertura que está no interior do jornal. Alguns jornais diários e a maioria das revistas costumam estruturar a chamada de capa como um “titulão” de duas ou três linhas. Seja lá qual for a estrutura, o importante é que a chamada de capa deve ser chamativa e sedutora, contendo, basicamente, o porquê daquela informação ter sido publicada com destaque. Afinal, ela está na “embalagem” do veículo impresso que irá para a banca.
Suponhamos, agora, que o editor não achou a sua cobertura bacana: ele achou que você é digno de um Prêmio Esso. Aí, ficou fácil. Dê uma espreguiçada, ofereça um café para o diretor de redação e observe como ele irá anunciar o resultado do seu árduo trabalho jornalístico como o principal destaque da parte superior da capa do jornal ou em letras garrafais: o seu texto virou manchete!

3 comentários:

DIDO OLIVEIRA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
DIDO OLIVEIRA disse...

Excelente material postado pela Patrícia. Eu sou seu fã como aluno da Estácio e tenho certeza que vou aproveitar bastante as matérias publicadas aqui nesse blog - parabéns!

Thaiza Murray disse...

Muito bom o texto, esclareceu várias dúvidas.