quarta-feira, 7 de maio de 2008

Tipologia e formatação do texto jornalístico impresso

Quase todo mundo tem uma tia “figuraça”. Eu tenho várias (e sou uma delas para sete “anjnhos”). Uma dessas minhas tias - leitora ávida de jornais e revistas, telespectadora assídua de novelas e, conseqüentemente, meu primeiro estudo de caso - volta e meia se indignava com algo que considerava inverossímel no telejornal nacional das oito. Sempre que isto acontecia, ela me pedia: “Filha, escreve um artigo aí no teu jornal falando desse absurdo! Onde já se viu uma coisa dessas? Escreve um artigo aí, filha, mas escreve logo para amanhã porque hoje mesmo aconteceu justamente o contrário comigo e com o pessoal aqui da rua!”.
O que a minha tia e a tia de muita gente queria dizer com a palavra “artigo”, na verdade, significava MATÉRIA FACTUAL. Pois é, o jornalismo tem essas coisas. Nem todo muito sabe fazer uma cirurgia de coração ou sabe construir uma ponte ou sabe redigir uma petição; nem todo mundo tem um estetoscópio ou uma betoneira ou uma carteira da OAB em casa. Mas a maioria das pessoas sabe produzir informação, sabe escrever e consegue formar uma opinião crítica sobre determinado assunto e quase todo mundo tem um jornal ou uma revista em casa. Ou seja: tanto a matéria prima quanto o produto do trabalho dos jornalistas estão ao alcance de todos (e eu acho que é por isso que alguns equivocados afirmam categoricamente que o jornalista não precisa cursar uma faculdade de JORNALISMO...). Essa proximidade provoca confusão – não só na cabeça da minha tia como também na cabeça de quem estuda jornalismo. Como podemos considerar como NOTÍCIA a esmagadora maioria do conteúdo que é veiculado em uma mídia jornalística, a diferenciação entre os estilos de texto e a formatação da informação fica nebulosa.
Vamos começar pela minha tia.
De cara, a diferença entre “artigo” e matéria factual” está no fato de que o primeiro é essencialmente dissertativo, ao passo que a segunda é uma narrativa de cunho eminentemente referencial. “Artigo” é frio e prima pela permanência, “matéria factual” é quente e prima pelo imediatismo.
Além disso, alguns autores dividem os textos jornalísticos em OPINATIVOS e INFORMATIVOS, mas eu discordo desta categorização. E concordo com o autor Manoel Carlos Chaparro quando ele afirma que esta divisão é impossível. O argumento é simples: para emitir uma OPINIÃO, o sujeito precisa utilizar uma grande carga de INFORMAÇÃO para embasar seus argumentos; ao eleger um dado ou fato como INFORMAÇÃO (em detrimento de outros dados ou fatos), o sujeito parte de um ponto de vista, ou seja, de uma OPINIÃO. Isto equivale a dizer que opinião e informação são inseparáveis. Por isso, prefiro classificar os textos jornalísticos como INTERPRETATIVOS ou TRADUTORES dos fatos.
Apesar de o significado das duas palavras se aproximarem, a interpretação remete a um ajuizamento, a um julgamento, ao passo que a tradução remete a uma transposição, a um traslado. Quando interpretamos, deixamos claro que a intenção de nosso discurso é a de defendermos o nosso ponto de vista sobre o objeto. Quando traduzimos, o sentido do nosso discurso está, necessariamente, “preso” a um “original”. Ainda que superficial (preciso estudar isto um pouco mais), esta diferenciação tem ajudado um bocado os meus alunos. De acordo com ela:
a. os textos jornalísticos de INTERPRETAÇÃO são aqueles nos quais o ponto de vista do enunciador é o tópico do discurso, como verificamos no artigo, na crítica, na crônica, no editorial, no comentário;
b. e os textos jornalísticos de TRADUÇÃO são aqueles nos quais o acontecimento vivenciado/testemunhado é transposto para a narrativa/descrição referencial, como verificamos na matéria factual, na reportagem especial, na nota.
Para não esquecermos o que diz Manoel Carlos Chaparro, é bom ficar claro que os textos jornalísticos de interpretação valem pelo embasamento referencial (as informações concretas) de seus argumentos; e os textos jornalísticos de tradução só vão transpor para a narrativa noticiosa aquilo que a linha editorial (opinião) do veículo considera relevante para o social.
Agora, vamos às definições de cada um desses textos:
· artigo- aborda especificidades relacionadas ao contexto de determinados fatos noticiosos defendendo um ponto de vista através da argumentação;
· crítica- analisa jornalisticamente eventos e produtos culturais defendendo um ponto de vista através da argumentação;
· crônica- texto livre, literário, sobre assuntos contemporâneos;
· editorial- justifica as narrativas noticiosas de um determinado veículo defendendo um ponto de vista através da argumentação;
· comentário- contextualiza uma determinada narrativa noticiosa, explicando-a através de uma breve argumentação;
· matéria factual- narra acontecimentos da realidade imediata com objetividade, descrevendo seres, objetos e lugares;
· reportagem especial- narra acontecimentos atuais, contextualizando-os em uma realidade mais ampla que a imediata, descrevendo seres, objetos e lugares;
· nota- informação rápida estruturada em um texto pequeno e conciso.

Estes diferentes tipos de texto são “arrumados” de várias formas nos veículos impressos. Em uma revista, por exemplo, a tendência é que eles se apresentem em seções, geralmente nomeadas: “Palavra do editor” para os editoriais; “Opinião”, para os artigos; “Radar” para as notas; “Ponto de vista” para as críticas; “Especial” para as grandes reportagens; “Atualidade” para as matérias factuais. Nos jornais diários, as notas costumam compor as colunas e a(s) página(s) de opinião são preenchidas pelo editorial, pelos artigos, pelas cartas dos leitores, pelas crônicas.
Além disso, a incrível quantidade de dados e de abordagens sobre um determinado assunto faz com que o texto jornalístico impresso necessite de uma edição que os selecione e os destaque. A cobertura factual de um assassinato, por exemplo, pode render uma apuração muito rica em dados, detalhes e pontos de vista, que precisarão ser “arrumados” na página do jornal. Assim, o leitor poderá identificar o texto que se refere a o que efetivamente aconteceu, o texto que explora a biografia da vítima, o texto que relaciona os últimos casos de assassinato naquela localidade, o texto editorializado ou o gráfico sobre o aumento do crime contra a vida nos últimos dez anos.
Esta “arrumação” de dados e abordagens pode ser categorizada da seguinte forma:
1. texto principal- além de conter as principais informações objetivas sobre o fato e seus personagens, dá a visão geral sobre o que está sendo abordado, incluindo o máximo de informações e declarações possíveis e/ou cabíveis no espaço delimitado pela diagramação; no exemplo do assassinato, seria a narração sobre o que efetivamente aconteceu;
2. texto coordenado (ou retrancado)- desenvolve algum aspecto do fato ou dos personagens que compõem o texto principal, ampliando o entendimento do leitor ou complementando a narrativa principal; no exemplo do assassinato, poderia ser o texto que explora a biografia da vítima e/ou o texto que relaciona os últimos casos de assassinato naquela localidade,
3. box- texto colocado entre fios, isolado graficamente do corpo da cobertura, que destaca algum aspecto, personagem(ns) ou comentário referente ao texto principal ou ao(s) texto(s) coordenado(s), podendo conter um aspecto pitoresco da notícia, um conjunto de declarações sobre o fato abordado, uma entrevista com um dos personagens, um histórico ou a opinião do jornal sobre o assunto; no exemplo do assassinato, poderia ser o texto editorializado sobre o aumento da violência;
4. infografia- gráfico, geralmente acompanhado por uma arte visual, que esquematiza, de forma rápida e simplificada, dados estatísticos, comparações, mapas etc; no exemplo do assassinato, poderia ser utilizado para mostrar o aumento do número de assassinatos, ano a ano, nos últimos dez anos.

Os exemplos desta “arrumação” são vários. Quando um compositor famoso lança um CD novo, o jornal pode fazer um texto principal com uma grande entrevista (abordaremos as entrevistas em um outro texto) sobre o processo criativo daquele trabalho; um texto coordenado sobre a mega produção que envolve o show de lançamento do disco; outro com uma crítica assinada sobre as músicas do CD; e ainda pode publicar um box com o título das faixas e suas respectivas fichas técnicas.
Como sempre acontece em jornalismo, não há regras fixas: tudo vai depender do assunto abordado, do repórter escalado, da apuração realizada, do espaço destinado e, é claro, do imprevisível.
Porque, de um minuto para outro, a dinâmica do mundo pode fazer TODOS os seus textos caírem...

2 comentários:

Alan Marinho disse...

Essa mulher é uma vida!! Show de bola esse texto! Essas definições realmente tendem a ser confusas para o leitor ou aluno desavisado.
Alan Marinho

Renata Martins disse...

Impressionada com a facilidade de transmitir os conteúdos. Excelentes seus textos!! Show!Obrigada